Arquivo / março, 2010

Tri-X

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O barco vai sendo tocado e a vida pregressa que sempre foi exposta com filme vai sendo encoberta aos poucos até que, uma destas chapas feitas com a última luz do dia comparece seguida da pergunta inevitável: sera que daria para expor esta foto hoje, do jeitinho desta aqui? Não sei. Esta aqui foi feita com TMAX 3200 puxado para 6400 e mais alguma coisa. Este mais alguma coisa era feito com a Bete Savioli em função do tempo de revelação, da temperatura do banho e da história de como tinha sido feita a foto. O placar final ficava assim: “então vamos revelar 6400 mais 2 1/2 minutos”. Se entrasse uma leve velatura, melhor ainda, menos contraste. O que enche a paciência na fotografia digital é que tudo é muito preciso, cortante, excessivo, explícito. Com pixels e megas não há conversa.

Um bolinho de carne e um café

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Só de pensar em pegar uma estrada de carro o meu sono na noite anterior fica prejudicado de tanta ansiedade. Principalmente quando o rumo é incerto. Na lista da logística uma câmera digital é suficiente, pode estar no banco ao lado só para manter o estado de leve tensão enquanto o pé pisa no acelerador e a luz da estrada passa sem que se tenha tempo de fixar imagem nenhuma, só o registro da luz. Não é viagem para fotografar. É viagem de sensações. Se pintar alguma coisa boa o jeito é se virar. A idéia é andar para arejar o projeto pessoal que normalmente é acometido de inseguranças e incertezas. Acontece que demora para comparecer alguma coisa que sirva para melhorar o astral do projeto empacado. Na semana passada entrei no bar Dois Irmãos em Camanducaia no meio da manhã para tomar um café e dei de cara com uma vitrine suada com a condensação dos bolinhos de carne que tinham acabados de ser fritos. O bar era muito pequeno com quatro mesas e um balcãozinho de fórmica antigo. No fundo, separado por uma cortina, uma panela de pressão chiava no fogão. A dona estava preparando o almoço. Era tudo tão ajeitado e limpo que o bar tinha mais cara de casa do que de bar. Pedi um bolinho e um café, um dos melhores que comi e, começamos a conversar sobre a receita do bolinho. O marido chegou e contou o segredo. A mulher mistura um pouco de trigo na massa para ficar crocante e depois frita lentamente. “Na massa eu tambem coloco salsinha, sentiu o gostinho?” A fotografia é isso, precisa disso, de uma estrada sem fim, um boa conversa e um café.

Arquitetura Baniwa

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Chuva de quinta-feira. Esquinas das Avenidas Ipiranga e Rio Branco-SP

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“Pegada hidráulica”

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Rio Negro em São Gabriel da Cachoeira-AM

Agora tambem pode-se fazer conta de quanto se consome de água por ano além daquela que pagamos para a  Sabesp.  Calcular a água que se gasta para atender todas as necessidades de bens e serviços. Tem que pensar, fazer estimativa de consumo e de qualidade. É possível contabilizar  o consumo de água gasto com o banho do poodle no veterinário, a sauna e por ai vai. A conta no Brasil, segundo o professor de hidrologia da USP de São Carlos, Eduardo Mário Mediondo, é de 1.300 m3 per capita por ano, semelhante a média mundial. A entrevista foi ao ar na segunda, se não me engano, Dia Mundial da Água e pode ser ouvida na íntegra no site do Milton Jung na CBN. Se hoje temos Tietê, Pinheiros e Tamanduatei sendo encapados de concreto sem controle do lixo, esgôto e das águas na época das chuvas, qual seria a pegada hidráulica no futuro para a cidade de São Paulo?

A pegada hidráulica é igual a grama que esta sendo plantada na Marginal neste momento. As placas de grama estão sendo colocadas por cima de morrotes de cimento endurecidos, de torrões enormes de terra dura como pedra. Como eu já disse a terra não é preparada, aplainada. As placas de grama sêca são jogadas de cima de uma caminhão. Tudo torto, é coisa bruta.

Que desânimo. Será que a calculadora da pegada hidráulica vai dar uma mão para melhorar a questão da água em São Paulo? E a pegada na Amazônia?

Os transportadores de luz da Amazônia

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Dia e noite empurradores sobem o Rio Madeira rebocando balsas carregadas com óleo diesel para abastecer um grande motor, uma termoelétrica, que gera energia para abastecer a cidade de Porto Velho em Rondônia. O óleo extraído dos poços da bacia de Campos no Rio de Janeiro viaja toda a costa brasileira em navios da Petrobrás, entra no Rio Amazonas na frente da Ilha do Marajó, passa ao lado de Belém e sobe o Rio Amazonas até a cidade de Itacoatira no estado do Amazonas, um pouco abaixo de Manaus, quase na frente da boca do rio Madeira. Ali o óleo é transferido para balsas que são empurradas rio acima por sete dias até chegar a Porto Velho. Ao longo do rio lâmpadas e televisores das casas dos ribeirinhos ficam ligados o dia inteiro porque não há conta de luz e nem interruptores, a ligação é direta.

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Biribas

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Cadê o prumo, o nível?

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Para quem não pode ver quadro torto na parede andar na nova Marginal do Tietê que esta sendo construída em São Paulo vai ser um martírio. Dificilmente vai ver um traço reto e cortante nas faixas brancas que riscam o asfalto. Se dirigir na pista que fica ao lado da longa mureta que divide a pista central das outras laterais e tirar um linha a olho nu vai ficar se perguntando de quem é a culpa. De vez em quando um calombo emenda uma mureta mais alta com uma mais baixa que provavelmente vinha sendo construida do lado contrario. Este pedaço me fez lembrar da construção da Cuiabá-Santarém que foi construída pelos Batalhões de Engenharia e Construção do Exército em 1970. O 8º partiu de Santarém e o 9º de Cuiabá. Três anos depois da largada tiveram que corrigir a rota porque a diferença entre as duas pontas da picada era de 40 quilometros. Hoje temos GPS mas o pedreiro que alinha os blocos não tem prumo. Aquilo vai virando um sobe e desce embaulado, coberto de manchas que retrata bem a preocupação com o espaço que queremos para o futuro, com o meio ambiente, com o respeito com o rio que corre ao lado. O paisagismo que estão fazendo na marginal merece ser visto de perto. Vale a pena dar um pulo lá agora para ter uma pequena amostra da nossa capacidade de recuperação de áreas degradadas.

São Paulo é a cidade dos grandes pensadores da sustentabilidade e do meio ambiente, é daqui que parte a maioria das ações na Amazônia e esta chegada poderia ser aproveitada como linguagem prática para ações futuras e não ficar só nos discursos que é coisa que fazemos muito bem mas na hora de plantar a grama não aplainamos a terra antes como estão fazendo na Marginal do Tietê.

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Moradia dos brasileiros

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Luis Fernando Veríssimo, jornalista

ab14Luis Fernando Veríssimo  em uma casa de suco na cidade de Guadalajara, no Mexico, durante a Copa do Mundo de 1986 quando trabalhou para a revista Playboy.