Serra do Mar: palmito juçara e cambuci

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Uma picanha e uma frigideira velha, preta de tanto uso no fogão a lenha feito de quatro blocos alinhados com uma trempi apoiada em cima de um par de paus de mato. Alex Atala esta a 70 quilometros do DOM, o 18º melhor restaurante do mundo. Ali não tem Pacojet, assistentes e ele esta despido de seu tradicional avental branco de chef. Ele acabou de sair de uma picada da Mata Atlântica, a nossa serra do mar deslumbrante, o matão para os íntimos. A conversa com os amigos é sobre o mato e os macucos.

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Enquanto conversa Alex pega a picanha e faz cortes transversais como se pode ver na foto. De um golpe só coloca os pedaços agrupados na frigideira, em pé, com a gordura para baixo e deixa fritar lentamente para derreter a gordura, depois tomba os pedaços e deixa entrar no ponto. Tudo isto é feito naturalmente quase sem tocar na carne, uma arrumação espontânea de um “food stylist” nato.

No fim da tarde juntamente com o amigo Fernão Mesquita descemos a serra e paramos no primeiro boteco do pé da serra para tomar uma pinga com cambuci. O teto do barzinho ficava a um palmo da cabeça do Fernão. Em cima do balcão um vidro enorme destes de 5 litros de palmito juçara era vendido por R$ 25 reais. A mulher nos serviu um copo americano cheio de pinga com cambuci e outro de pinga com orvalha e abriu um vidro de palmito pequeno e colocou em uma travessinha destas “made in china”. Temperou com sal, espremeu limão cravo e regou um fio de óleo Maria.

Avançamos no palmito alternando goles de pinga enquanto resmungavamos inconformados com a pouca valorização dada as nossas relíquias gastronômicas.

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“E tem gente que gasta fortunas para ir a Alba comer e nunca provou um palmito juçara”, reclamou Alex enquanto pedia que a mulher abrisse mais um vidro de palmito. Eu queria levar um vidrão para casa. Era barato demais e eu ia me esbaldar, matar todas as vontades. Fernão e Alex acharam melhor não. Aquilo era um estímulo a predação mesmo com a mulher sinalizando varias vezes que precisava de 50 reais naquele dia. Abrimos outro vidro e comemos mais palmito, alvo, macio, único e bebemos mais, desanimados com a falta de perpectivas para aquele mato que poderia ser muito mais bem cuidado e aproveitado por todos nós. Uma pena, no fundo o que nós queriamos naquela hora, se pudéssemos, era pegar os brasileiros um por um pelo braço e mostrar o caminho daquela beleza de serra, depois servir o legítimo palmito juçara e uma pinga com cambuci. Queriamos compartilhar com todos aquele gosto que, nas nossas contas, infelizmente, esta com os dias contados.

6 Comentários

Marise   em 20 julho, 2010

Pedro, que delícia essas suas narrativas!
Pena que se você pudesse pegar cada brasileiro pelo braço e levar para sentir a beleza da mata, o gosto do juçara e da cachaça com cambuci, o tempo de permanência de todo esse nosso patrimônio seria muito menor. Esse é o problema! Gente demais, pouco cuidado, nada de consciência…

lina faria   em 21 julho, 2010

Minha preocupação foi ambiental como a da Marise, mas sabendo e dando licença à sua poética, só merece mesmo essas regalias quem vai à fonte por intuição, felizmente os mais sensíveis. Há valores que só se mantém por pudícos. Se entregues e desfrutáveis a quem não tem a curiosidade de ir conquistá-los, banaliza-os.
Na Ilha do Cardoso, como juçara mas não compro para trazer ao continente.

ah, e levo sempre um vidrinho de azeite e shoyo qd vou a lugares remotos do mato. e vou muito.

Pedrão, que vidão, hem?

Lineu   em 21 julho, 2010

Aqui em Curitiba a serra fica bem pertinho da cidade, e o povo não conhece. Eu que ando nesse matão desde pequeno sempre pensei que um dia o palmito ia acabar na serra. A polícia já prendeu e soltou todos os palmiteiros da região, menos o vereador que é o único que ganha grana de verdade com o palmito.
Se em vez de prender os caras , tivessem usado o conhecimento deles para plantar mais, hoje teríamos muito palmito e uma caboclada feliz, que cuidaria do pedaço. Mas não, proibir é mais lucrativo, afinal não se paga imposto e nem direitos trabalistas.

Marise   em 22 julho, 2010

Será, Lineu, que a cablocada iria contentar em plantar palmito e viver feliz?
Conheci o litoral norte de São Paulo lá por 1960/61. Um paraíso com caiçaras morando na areia…
O problema é que todo paraíso atrai serpentes, demônios.
Aquele litoral ainda é bonito, desde que se consiga ignorar o “paulistano way of life” que se instalou por lá.
Como disse a Lina, melhor deixar os paraísos só para os sensíveis…

jeanne   em 22 julho, 2010

as historinhas, as fotos, a comida, vc me põe saudades de coisas que não conheço…

Lineu   em 23 julho, 2010

Pois é Marise. Mas tirar o sustento deles e dar a cadeia como alternativa também não resolve nada.
Eu tb acho que o “paraíso” deve ser para os sensíveis, mas acontece que os palmiteiros são a caboclada que vive por lá desde sempre. Os parques vieram depois. Em lugares decentes, aos poucos os caras que viviam de caçar e cortar palmito foram sendo incorporados como guarda-parques.
Aqui na serra do mar não é como na Amazônia, temos uma área verde pequena e que está sob pressão.
O que eu vejo aqui são parques de papel, que não tem gerente, nem fiscal, nem estrutura. E de tempos em tempos o governo organiza alguma ação publicitária de fiscalização que sempre culmina em 4 ou 5 coitados mortos de fome presos por crime ambiental. Depois eles voltam para o mato e o povo da cidade volta para o conforto dos seus apartamentos achando que salvaram a natureza. Só que o caboclo que apanhou na cara da polícia está lá, e com raiva de tudo. Depois não adianta reclamar que eles colocaram fogo na montanha, ou atiraram numa onça.

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