Arquivo / 'Amazônia'

Abóbora da roça Panara

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Um belo dia os Panara colocaram fogo na maloca grande da aldeia principal e desapareceram. Claudio sobrevoou a aldeia para jogar presentes e avistou no centro da aldeia um enorme varal com muitos instrumentos de trabalho, arcos e flechas, machados de pedras e bordunas enormes. Claudio interpretou que eram presentes e nós tinhamos que ir busca-los. Caminhamos tres dias até encontrar a picada principal que nos levaria a aldeia grande. Antes passamos por muitas aldeias menores, todas dentro do mato, cruzamos roças fartas. Se não fosse as abóboras, amendois e bananas das roças Panara teriamos passado fome porque a orientação do Claudio era para que não se disparasse nenhuma arma, mesmo que fossemos atacados a orientação era disparar para cima.

A comida da expedição nestes tres dias foi abóbora cozida, farinha, banana e um bom punhado de amendoim encontrado dentro de um aturá que estava amarrado no pé de uma árvore. Provavelmente servindo como seva para algum bicho que seria caçado de espera pelos índios.

Na foto acima os caldeirões com abóboras sendo cozidas para o almoço na beira de um igarapé nas proximidade da aldeia Panara.

Amazônia real

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Galeria do blog em Curitiba

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Nesta sexta feira as 19,30 será aberta a exposição A Amazônia de Pedro Martinelli na Galeria PortFolio de Curitiba. As fotos fazem parte da Galeria do Blog. São 10 imagens 24X25cm, PA (prova de autor), montadas sobre base de eucatex com vidro incolor fixadas com presilhas de aço e passe-partout em papel Crescent acid-free.

No sábado e domingo estarei fazendo um workshop sobre Projetos Pessoais na Escola da Galeria PortFolio. Os participantes e interessados poderão adquirir o livro Gente X Mato e Mulheres da Amazônia.

Açaí para o mundo

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bbb28 O litro de açai foi de R$ 1,50 na cidade de Belém para mais de R$ 12,00 em pouco mais de um ano. O açaí especial, batido grosso com pouca água esta custando até R$ 20,00 o litro, um absurdo para o cidadão que esta acostumado a pegar o almoço com uma cuia de açai do lado. Os “batedores” compram o fruto na Feira do Açaí ao lado do Mercado Ver-o-Peso que é tambem uma espécie de Bolsa que regula qualidade e preço. O caboclo que esta no mato fazia festa na época da safra, a criançada vivia com a boca roxa de tanto comer o fruto ou tomar batido com farinha. O açai vale muito hoje e o caboclo traz contato todos os cachos que estão no entorno da casa. Sabe que uma “rasa” de um bom fruto (duas latas de 20 litros) pode valer na feira até 60 reais. É a fama do açai correndo mundo.

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Uma amazônia sem peixe

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Quanto mais se sobe o rio Negro no rumo da Colômbia menos peixe. Os índios da Cabeça do Cachorro, que habitam os principais afluentes do Rio Negro como rio Içana e Rio Tiquié fazem malabarismos para conseguir o peixe de cada dia. Comem mais frango do que peixe. Não se sabe extamente o que acontece. Cachoeiras enormes com desníveis imensos impedem a subida para a desova, acidez da água, falta de lagos e, claro, crescimento da população estão entre as principais causas. O caiá da foto acima é uma armadilha feita de esteira de palha que é colocada no pé da queda da cachoeira para aparar as piabinhas que rodam sem controle corredeira abaixo. A coleta é a conta certa para fazer a quinhampira do dia. Um cozido com muita pimenta de diversos tipos engrossado com beiju.

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Em época de balanço do desmatamento não custa lembrar o entorno do Parque Nacional do Xingu

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Onça parda

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Onça parda empoleirada no pantanal do Mato Grosso por meia dúzia de cachorros que pegaram seu rastro de manhã, correram e fizeram ela subir nesta árvore a 15 metros do chão. Fiz esta foto com uma câmera G11, zoom intermediário que deveria equivaler a uma lente 135mm na foto mais cheia. Este é o momento que, acuada pelos cães, seria uma alvo fácil para o caçador. A onça parda quando esta com filhotes chega a matar dois ou tres bezerros por dia para ensinar os filhotes a caçar, comem os miúdos e depois abandonam as carcaças.

A história da onça do Claudio

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A rotina do acampamento da expedição de contato dos índios Panara comandada por Claudio e Orlando Villas Boas era sempre a mesma. Como as casas eram dentro do mato o limite para tomar banho com luz do dia era quatro horas da tarde e o jantar servido as cinco. Todo mundo comia de frente para o rio em silêncio, assistindo o último clarão do céu morrer no espelho d’água do rio Peixoto de Azevedo. As seis todos já estavam em suas redes e o falatório na diversas línguas ia até as sete. Na casa do Claudio uma lamparina à querosene ficava acesa até altas horas. Era para lá que eu ia todas as noites depois do jantar. Claudio gostava de relembrar os restaurantes que costumava frequentar. Quase sempre faziamos uma viagem imaginária, a pé, que começava nos altos da Avenida Paulista e terminava na frente de uma prato de capeletti a romanesca no Gigetto, o restaurante preferido do Claudio.

Luigi Mamprim era o fotógrafo da revista Realidade, dormiamos na mesma casinha mas ele dormia cedo. Eu ficava sentado em um banquinho na frente da rede do Claudio ouvindo tudo, sermão contra os militares, estratégias do contato e histórias de mato, do desbravamento do Brasil Central de cair o queixo. Eu adorava ouvir o Claudio.

Onça é um bicho que não sai da cabeça de quem anda no mato um segundo e alimenta o imaginário de gente que não sabe que, o que mata no mato é o medo. Caboclo do mato só pensa nisso e lenda é o que não falta. Nós, lá no Peixoto tinhamos visto muitos rastos nos barreiros e eu mesmo quando voltei para o acampamento depois de uma tarde de chuva encontrei umas pisadas do tamanho da minha mão aberta ao lado da minha rede. Foi um baque. Na noite anterior eu e o Claudio tinhamos visto a silhueta maravilhosa, contra a luz de uma lua cheia, de uma onça enorme atravessando a pauleira da derrubada do campo de pouso. Resolvi mudar minha rede para perto do trempi da cozinha que ficava com fogo a noite toda. Naquela noite a conversa foi sobre onças e Claudio me contou esta história sobre uma onça que andou ao lado dele o dia todo.

Claudio e os irmãos estavam fazendo a picada do Brasil Central e os trabalhadores que Claudio chefiava resolveram fazer um levante e não seguir mais viagem com ele. Claudio deixou os trabalhadores e voltou a pé para montar uma nova expedição. No segundo dia de caminhada, logo pela manhã, uma onça pintada começou acompanhar os passos do Claudio a 15 metros dele, paralela a picada. Claudio tinha na cinta um Schimth Weston calibre 38, cromado, cabo de madre pérola, uma jóia. Logo que ela apareceu, ele chegou a levar a mão na coronha. Andou um bom pedaço com o antebraço apoiado na cartucheira, foi afrouxando e cada vez mais prestava a atencão na beleza do bicho. Ele me descreveu a luz que entrava pelas frestas da capoeira e faziam o pêlo da onça pintada brilhar. Claudio descrevia o passo cadenciado, a beleza das mãos e me disse que os olhos dela faiscavam quando os olhos deles se cruzavam. A região era plana, uma mata de transição, um cerradão meio limpo por baixo onde ele podia ter um bom controle do bicho. Uma bela hora resolveu dar uma parada para acender um cigarro. A onça parou e sentou. Trocaram mais olhares e a onça lambia os bigodes com uma língua enorme, tranquila. Claudio resolveu brincar, deus mais uns dez passos e parou de novo. Ela levantou com muita calma andou mais um pouco e sentou novamente, continuou olhando para o Claudio, lambendo os bigodes. Claudio achou divertido a brincadeira com o bicho e retomaram a caminhada, ela sempre ao lado dele. “De vez em quando ela sumia e eu ficava preocupado, encostava em uma árvore grande e esperava um pouco, voltava a caminhar e logo ela aparecia sempre paralela a picada, pertinho de mim”.

Um pouco antes de escurecer Claudio montou um girau e armou sua rede em dois paus finos a dois metros do chão. Não sentiu medo. Adormeceu e sonhou com a beleza dos movimentos da pele brilhante da onça pintada, sua companheira de caminhada.

Farinhas e beijus

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As mulheres panara são especialistas em beijus de tapioca e da mistura de mandioca crua ralada e mandioca amolecida em igarapé, a puba. O que determina o padrão de qualidade da farinha de uma comunidade é quantidade de fermentação, feita com a saliva das índias e percebida quando se toma o xibé, água com farinha e, quantas partes de puba e massa crua de mandioca se faz a farinha. As índias fazem “envelopes”de folhas de bananeira compridos que são assados sobre pedras quentes e cobertos com terra e mais folha de bananeira. Os panara, mergulham o beiju em água com muita pimenta e comem acompanhando peixes e carne de caça moqueados.

Pimenta murupi

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