Os índios gigantes

 

presentes

Depois que o primeiro campo de pouso foi construído na margem direita do rio Peixoto de Azevedo Claudio Villas Boas sobrevoava a aldeia Kranhacãrore quase toda a semana para jogar presentes.  O tempo de vôo do nosso acampamento até a aldeia era de 10 minutos no 019 da FAB, um pequeno avião de treinamento sempre pilotado por um jovem do Campo dos Afonsos no Rio de Janeiro. 

Numa manhã, Claudio Villas Boas encontrou a aldeia incendiada. No meio um imenso varal com bordunas, arcos, flechas e instrumentos agrícolas. Naquela noite Claudio e o irmão Orlando conversaram até tarde da noite sobre o significado daquele gesto. No dia seguinte Claudio decidiu, “temos que ir lá, pegar os presentes”  Todos ficaram apreensivos porque ninguém descartava a possibilidade de um armadilha. Seria muito fácil para os Kranhacãrore, era só esperar que todos estivessem no centro da aldeia e fazer o ataque. Não sobraria ninguém. Claudio estimava uma população de 300 índios.  A nossa expedicão era formada por 28 índios xinguanos , Claudio, Orlando, Mamprim, Etevaldo e eu.

Claudio era um homem determinado. Não acreditava na hipótese do ataque e lembrava, “aconteça o que acontecer nenhum tiro, nem pra cima. Se for o caso eu aviso”. Ele compartilhava com Rondon o lema “morrer se for preciso, atirar jamais”.

Nos grandes deslocamentos Claudio usava na cinta um revólver Smith Weston 38, cromado, cano longo. Eu vi ele sacar esta arma duas vezes. Uma para dar um tiro numa surucucu e outra para apontar na cabeça do sargento do exército que havia dado um tiro nos índios. Bom, mas esta é uma outra história que eu conto qualquer dia destes.

Levamos dois dias para achar a aldeia principal.  Andamos o primeiro dia inteiro ziguezagueando até encontrar a primeira picada. Nossa comida era transportada por um  índio que carregava nas costas um caldeirão com uma farofa de paca suficiente apenas para o primeiro dia.

A medida que chegavamos próximo da aldeia a picada se dividia em vários ramais, quase todos iguais e da mesma largura, que levavam sempre nas roças. Andamos em todas até encontrar a picada mestra que ia alargando a medida que nos aproximavamos.

O clarão do aberto da aldeia ia aumentando na mesma proporção do medo. Claudio na frente entrou firme e rumou para o centro, atrás dele todos nós enfileirados, em silêncio esperando pelo pior. 

Nestas horas e bom ser fotógrafo. Coloquei a cara atrás da câmera e me senti como se estivesse dentro de uma armadura. 

Em minutos estavamos todos confraternizando, um falatório imenso nas diversas línguas xinguanas, Caiapó, Txicão, Kamaiurá, Kuikuro e Txucarramãe. O índios da expedição estavam eufóricos.  Recolhemos o que era possível carregar e dormimos na aldeia.

Eu, sempre com a “pulga atrás da orelha”, como dizia meu pai,  lembrava das histórias de massacres do Orlando Villas Boas que tirava o sono de qualquer um.

4 Comentários

Bruno   em 9 março, 2009

Pedro,

difícil não entrar todo dia no seu blog e cada vez que entro é uma nova e agradável surpresa. Tudo que nos resta é agradecer pelos presentes que nos deixa, belas fotografias, textos bem escritos, testemunhos de uma valia inestimável. Em menos de uma semana, virei fã.

José Luiz   em 10 março, 2009

Olá,
Pedro

Essas fotos em preto e branco são maravilhosas, elas conseguem mostrar a realidade
mesmo sendo preto e branco, uma realidade carregada de sentimento.
Fotos PRETO E BRANCO tem muita vida. É isso.
Abraço.

Luciano Stabel   em 10 março, 2009

Simplesmente fantástico, digna de filme essa história!

Marcia Andrade   em 10 março, 2009

Pedro Martinelli,

Como é boommmmmm ler boas histórias, ver imagens fantásticas e acompanhar sua trajetória maravilhosa.
Muito muito muito obrigado pela gentileza de nos proporcionar tudo isso.
Amo essa Arte!!

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