Asfalto, cana e eucalipto

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A fotografia é um bom medidor das transformações do nosso cotidiano. Eu não tenho jeito, vivo fazendo comparações. Bom, eu guardo as fotos, vejo, revejo e choro as mágoas. Agora, neste final de semana não fiz outra coisa enquanto dirigia os 480 quilometros da Rodovia Anhanguera até Uberaba. Lembrei das primeiras matérias que fiz para o Caderno de Economia do jornal O Globo sobre a erradicação dos cafezais depois das grandes geadas de 1970. A terra vermelha estava presente em toda parte, as cidades eram vermelhas, os carros, as roupas, tudo. A terra era sinal de gente, de vida. Aquela terra dava foto. Agora a cobertura é verde clara e não faz contraste com a terra porque a cana sufoca todos os espaços. Quando não é a cana é o eucalipto e a paisagem não muda. A estrada é impecável, o acostamento parece um jardim mas não tem vida. Não se vê uma pessoa, é um sobe e desce de cana interminável. Os bóias-fria, os podões, as garrafas térmicas Invicta, as marmitas areadas , a moda colorida de sobreposições, onde foram parar aquelas figuras humanas únicas? O interior de São Paulo virou um canavial com um asfalto preto no meio.


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