Taffarel

(Reprodução da revista) - Penalti que o Taffarel pegou na copa de 1994 trouxe a taça para o Brasil.Este penalti que o Taffarel pegou na copa de 1994 trouxe a taça para o Brasil. Que drama a decisão de uma copa nos penaltis.

Em alguns momentos, de desconcentração, eu imaginava como estaria o Brasil naquele momento.

Eu já tinha coberto tres copas, Espanha, México e Itália e tambem não tinha visto a cor da taça na nossa mão. O fotógrafo que vai para uma copa é escalado um ano antes e passa cobrir a seleção em tempo integral. Não tem jeito, voce vira cúmplice. Nas outras copas eu me senti tão derrotado quanto os jogadores.

A copa da Espanha foi especialmente dolorosa porque os espanhóis choravam na rua, inconformados com a derrota.

Antes do jogo a Fifa faz uma preleção para os fotógrafos,  a presença é obrigatória porque no final da reunião é a entrega dos coletes. Cada fotógrafo escolhe uma cor que corresponde a um lado do campo. A revista Placar tinha dois fotógrafos, eu e o Nelsinho. A troca de coletes é permitida entre fotógrafos, mas não é permitida a mudança de lado com colete de outra cor. Foi o que aconteceu comigo naquela  final contra a Itália. Não me deixaram passar para o lado onde seria batido os penaltis.

Eu trabalhava com quatro cameras. Com as lentes 400mm e 300mm  eu fotografava na mão mas a 600mm era muito pesada e tinha que ser  apoiada no monopé.

Fiquei esta meia hora que antecede a cobrança do penaltis  siscando pra lá e pra cá, na minha medade de campo tentado decidir o que fazer. Eu tinha duas alternativas, a mais cômoda, garantida e sem riscos era fotografar de 400, exatamente em cima da linha que divide o campo e quando terminasse os penaltis  invadir o outro lado e,continuar trabalhando com as outras câmeras. A mais perigosa era  ir de 600mm e me afastar até a marca do penalti do meu campo e depois dos penaltis continuar quieto e fazer o que fosse possível.

Decidi ir para o risco. Coloquei a 600 que virava  1200 na digital e coloquei o monopé em cima da marca do penalti do meu lado de campo. No eixo. Queria a rede do gol como fundo da foto. Quando o Taffarel entrou em baixo dos tres paus sobrava um milímetro em cima da cabeca e dos pés. Quando ele movimentava para os lados com os braços abertos, a mão saia de quadro. A aproximação era tanta que deslocar a câmera para os lados um centímetro fazia o gol sair totalmente de quadro.

Pior, como o Taffarel eu tambem tinha que escolher um lado e ir. Nesta hora  percebi que estava tudo certo tecnicamente porque camera e lente eram uma extensão do meu corpo, eu não percebia a camera na mão, Sentia que minha respiração fazia a camera balançar muito. Fui me controlando, sabia que o instinto daria conta de disparar na hora certa, mas não podia sair rápido e passar o gol.

No primeiro penalti eu decidi ir para a minha esquerda, a direita do goleiro. O Taffarel e a bola foram para o outro lado. Na minha chapa nada. Só a rede. Treinei com goleiro italiano, era muito dificíl, uma loteria.  Fiquei firme. No segundo penalti continuei achando que o Taffarel ia para a esquerda dele, eu fui e ele  não. Nesta foto só aparece os pés dele indo para o outro lado.

Terceiro penalti. Eu e ele fomos para o canto certo e eu enchi o quadro. Uma única chapa, esta que esta ai em cima.

Fui para a sala de imprensa descarregar o cartão e vi que tinha feito a foto. Ai sim suei frio, de emoção. Em seguida chegou o Juca Kfouri. Nenhuma palavra. Só um forte e longo abraço choroso.

Voltei para a entrega da taça, que delicía imaginar o Brasil naquele momento.

28 Comentários

Danilo   em 20 fevereiro, 2009

Pôxa Pedro, até arrepiou lendo esse post, que momento único!!!

Abs
Danilo

Ralph   em 20 fevereiro, 2009

Perfeito. Ainda quero aprender a técnica secreta de se conseguir “A FOTO” com apenas um clique!

Felipe   em 20 fevereiro, 2009

Cara, muito legal. O post é tenso, que bom que tem final feliz. O outro fotógrafo conseguiu as imagens também?

Continuo acompanhando.
Abraço,
Felipe

Marcos   em 20 fevereiro, 2009

Muito bom cara parabéns, e parabéns também pro Juca por divulgar, querendo ou não que não é da area não conhece muito os nomes dos fotografos, mas sim lembram das imagens, imagem que essa estará gravada em minha mente para sempre.

Obrigado.

valter   em 20 fevereiro, 2009

Ficaria mais interessante se pudesse colocar as fotos que voce mencionou junto com o texto do post.

Alexandre Belém   em 20 fevereiro, 2009

Parabéns pela história e pela foto.

Abraços.

Oscar   em 20 fevereiro, 2009

Certa vez vi o Juca Kfouri dizer que essa foto rendeu uma boa grana à Abril… Posso estar enganado, mas creio que vi uma entrevista sua contando que quando você clicou, os outros fotógrafos sacaram na hora o bom resultado da imagem e quiseram comprá-la.

Abraço.

Clarisse   em 20 fevereiro, 2009

Lembro dessa copa e desse jogo como se fosse ontem, o início de uma paixão! Concordo com o Danilo aí em cima: deu até arrepio, tanto a foto quanto o texto! Que post!
Aliás, que blog! Mergulhei no mundo da fotografia há mais ou menos um ano (ainda estou engatinhando) e blogs como o seu só me deixam mais e mais apaixonadas por esse universo… Obrigada por essa inspiração!

Flavita   em 20 fevereiro, 2009

Até chorei.

Deivyson Teixeira   em 20 fevereiro, 2009

Muito lindo seu blog. Já li de cabo a rabo e as hístorias são fantásticas. É um mundo a parte da fotografia tão importante como o ato de fotografar.

abração e parabens
virei fã

RodrigoSol   em 20 fevereiro, 2009

Simplesmente espetacular!

Nelson Lima   em 20 fevereiro, 2009

Pedro, sensacional esta foto. Taffarel abriu as portas do mercado europeu para os goleiros brasileiros. Hoje existe um divisor , antes do taffarel e depois do Taffarel.
Um abraço
Nelson

Pedro Martinelli   em 20 fevereiro, 2009

Fiquei sabendo recentemente, pelo Juca, que as despesas da cobertura da copa foram pagas com a venda da foto do Taffarel. O outro foi a queda da Mary Decker que tropeçou na Sul Africana na final e caiu. A maioria dos fotógrafos se programou para fazer a chegada. Eu vinha acompanhando quando aconteceu a queda no final da
curva. Só a minha câmera cantou no meio daquela multidão de fotógrafos. Os Editores de fotográfia - eles mudam a posição das cameras de seus fotógrafos em função dos concorrentes - vieram pra cima de mim querendo comprar a foto.

Pedro Martinelli   em 20 fevereiro, 2009

Felipe, o Nelsinho tambem fez a cena, como a maioria dos outros fotógrafos, de trás do gol.

Ana Paula Bousquet   em 21 fevereiro, 2009

Pedro,

Esse relato tá de tirar o fôlego!

Muito lindo mesmo.

Que delícia seu blog,

…sem palavras!
Parabéns!!!

Beijo.

Rogerio Delamare   em 21 fevereiro, 2009

CARO PEDRO,
Parabéns!!!
Um fotográfo, um goleiro, um milimetro, um segundo, coadjuvantes e protagonistas em milesimo de segundo.
Um fornalista, um gol e a emoção.
É a vida meu caro!
Obrigado pela foto.

Murilo Caixêta   em 21 fevereiro, 2009

Sensacionais o texto e a foto. Você defendeu o penalti junto com o Taffarel. Muito interessante ver o relato do trabalho do fotógrafo, a dúvida, a escolha, etc. Já tinha visto o Juca falar sobre essa foto e foi pelo blog dele que descobri o seu.

O blog tá excelente! Tenho 19 anos e sempre gostei de fotografia (sou neto de fotógrafo), mas não entendo nada sobre o assunto. Com o seu blog dá para ter uma noção de como é ser fotógrafo e talvez seja uma motivação para que eu corra atrás desse sonho.

Parabéns e obrigado!

Wanderley Garcia   em 21 fevereiro, 2009

Pedro, já tinha ouvido o Juca contar essa história e já a recontei muitas vezes, mesmo sem ver a foto, apenas imaginando o que o Juca descrevia. Sempre tive vontade de ver a imagem. É realmente maravilhosa. Parabéns.

felipe barros   em 21 fevereiro, 2009

A fotografia é um eterno sonho!!!

Pedro Xavier   em 22 fevereiro, 2009

Fantástico este relato. Ler coisas desse tipo só aumentam minha vontade de viver da fotografia.
Muito bom Pedro, sou um grande fã do seu trampo!
Abraço

simonetta persichetti   em 23 fevereiro, 2009

Querido,
adorei o teu blog. Já noticiei no meu. Esse tipo de blog estava em falta! Não está mais. Ainda por cima é você um grande contador de histórias!
Beijos e saudades
Simonetta

José Ricardo   em 7 março, 2009

Pedro, ouvindo a CBN ontem a noite pude saber um pouco mais sobre o seu trabalho…Essa foto, assim como as outras que aqui estão mostram o quanto uma imagem pode transmitir quando bem registrada.
Fiquei muito interessado pelos seus livros sobre a Amazônia, e com certeza vou me informar mais sobre eles.
Não sou um fotógrafo, mas adoro boas fotos como as suas.
Abraço!

Valdecir Carvalho   em 8 março, 2009

Pedro, ontem a noite pude acompanhar a tua entrevista no Juca Entrevista na ESPN. Tomei conhecimento do teu trabalho atravéz das aulas do João Bittar e recentemente pela revista Brasileiros. Qdo soube do teu blog, corri para ver, ler, degustar e me deliciar com tuas histórias. Virei seu fã!
Um grande abraço,
Valdecir

Virginia   em 9 julho, 2009

Nesse dia eu me lembro que passei mal achando que iriamos perder, quando vi o Taffarel agarrar aquela bola apertei a mao da minha mae e gritei muito, chorei corri pela rua foi emocionante demais, e rever essa cena, nossa!!! a emoção agora foi perfeito que delica isso viu, fotografias sao hitórias da alma conseguem ir muito além dos olhos. Ja era tua fã anônima rs, agora vou assumir e passar por aqui com mais atençao. Bjs e obrigada

Pedro Martinelli   em 5 novembro, 2009

Marise,
É Aparecida do Norte.
abs.

Thiago Leon   em 6 novembro, 2009

Li, sem piscar e respirar.

Gabriela   em 23 novembro, 2009

Nossa, muito legal, Pedrão! Demais! Amei.

Parabéns,

Beijo,

Gabriela

Paulo Cesar   em 9 janeiro, 2010

Parabéns por dividir conosco tantas histórias maravilhosas.Como um “quase” fotógrafo, me emociono com seus contos. Quem sabe um dia ter também algo semelhante pra contar a meus filhos.Abraços,grande mestre.

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