Risco no prato, até quando?

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Toda vez que um cozinheiro resolve usar alguma coisa do baú de conhecimento culinário que os europeus, índios e negros formaram com o descobrimento do país os brasileiros estranham e compreendem muito pouco. O Brasil se conhece cada vez menos. O chef Alex Atala volta e meia apronta uma destas. Inventou moda com o cambuci na terra do cambuci. Criou um sorvete que deixou muita gente de boca aberta e serviu para refrescar a memória do paulistano que tinha esquecido que aqui era difícil um moleque ir para escola sem passar por um pé de cambuci ou orvalha.

Esta certo que o Brasil é muito grande, difícil, tem muita coisa para ver, por isso eu acho que desistimos de tentar entende-lo. Talvez seja por isso que somos uns Maria-vai-com-as-outras e resolvemos dar um pulão, passando por cima do conhecimento da nossa gente sobre as terras, bichos, águas e peixes sem ter a menor vontade de estuda-los a fundo. Continuamos batendo cabeça, desprezando o brasileiro que ainda vive no campo. Achamos que é gente que não vale um tostão furado. Não temos vontade e muito menos humildade para ouvi-lo, mas quando interessa e de acordo com a moda, vivemos repaginando seu modo de viver sem a menor vergonha, copiando descaradamente seus pratos e suas idéias, pior, sem dar crédito. Embicamos direto no moderno. Hoje, preferimos e entendemos mais de espumas, crostas, camas, vapor e pacojets do que de um simples peixe moqueado que é um clássico das baixas temperaturas desde que o homem descobriu o fogo. Alex esta entre os 20 melhores chefes do mundo. Conquistou esta posição dando murro em ponta de faca, driblando estereótipos e formando opinião. Vai ter que continuar suando a camisa para mostrar que comida boa não é risco no prato, muito menos uma par de cebolinhas cruzadas em cima da comida. Comida boa precisa de cultura, história e reconhecimento.

6 Comentários

Marise   em 18 janeiro, 2010

“..e a cada dia fica menos fotógrafo e mais cidadão.”
Cidadão num sentido amplo, que aprofunda as questões suscitadas pelo que fotografa.
Gosto muito das suas abordagens “culinárias”, porque é um assunto fascinante, que diz muito da cultura de um povo.
Dúvida: Orvalha e uvaia são a mesma fruta?

Pedro Martinelli   em 18 janeiro, 2010

Marise,
Sim, é a mesma fruta.
abs.
Pedro

Beth   em 18 janeiro, 2010

Sim , comida boa precisa de cultura e reconhecimento.
E orvalha, finalmente voce me lembrou a frutinha que meu pai sempre falava, e ele era mineiro.

Ana Paula Bousquet   em 18 janeiro, 2010

Pedro,

Seus passos caminham num tempo acima do que está posto. Feito aquele gigante de botas ou o menino que usa a bota de sete léguas.
Provoca, para pensarmos no quanto a comida é um poderoso veículo da cultura e para que possamos nos reconhecer como povo, valores.
Saber o que somos ou o que pretendemos, pode ser expressado também pelo alimento como elemento fundante.

Parabéns.

Abçs,
Ana Paula

Anselmo Coyote   em 19 janeiro, 2010

ar.te
sf (lat arte) Sociologia: Objetivação social, isto é, coisa que, como os outros fenômenos culturais, é determinada, em forma e conteúdo, pela estrutura social.

culinário
cu.li.ná.rio
adj (lat culinariu): Da cozinha ou a ela relativo.

Simples assim. Arte culinária.
Infelizmente alisamos bancos de escola por duas décadas e sequer sabemos ler.

Ler palavras? Ah… isso nós sabemos. Aprendemos muito bem juntar as letras.

Falo em ler significados, significantes, significações, signais, sinais… em ler o mundo, ler a vida.

Em voltar a ser criança, quando pensávamos que o mundo era o que estava à nossa volta, ao alcance de nossas mãos. Estávamos certos. Se tivéssemos explorado ao extremo aquele pequeno mundo e todos os mundos que vieram depois nos reconheceríamos nas coisas. Estaríamos nas coisas e delas nos orgulharíamos. E cuidaríamos de tudo e de todos.

Abs.

Ana   em 7 fevereiro, 2010

Em minha infância no interior paulista a uvaia também era orvalha. No sítio que foi do meu avô eque virou área de preservação ambiental, ainda há muitos pés. Também me incomoda o descaso para nossas coisas e quando alguém “da moda” “redescobre” recebe todas as glórias. É o tal de complexo de vira-latas.

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