Rediscutindo a relação

antarticablog

 

Na semana passada houve uma troca frenética de e-mails entre fotógrafos. O assunto/pergunta era até onde vai chegar a manipulação na fotografia. Muita gente boa assinou pontos de vista interessantes. Fotógrafos de todas as áreas, jornalismo, moda e propaganda.

Não sei como começou esta “ola” mas percebe-se que ainda tem gente inconformada, querendo rediscutir a relação.

A vítima, pobre coitado, é sempre o Fotoshop. Não sei porque, mas o tom das justificativas para explicar o uso desta ferramenta é de quem ainda não se sente confortável quando a vida pregressa é comparada. Me parece uma relação insegura que precisa de juras de amor eterno todos os dias para continuar o namoro com o mundo digital.

Até outro dia a manipulacão das fotos era feita no laboratório, expondo mais uma área da foto com um “dodi” ou abrindo uma luz no pincél com ferricianureto. Coisa pouca, ingênua, suportável. 

No jornal A Gazeta Esportiva se a bola ficasse fora do quadro na foto do gol o laboratorista colocava uma moeda onde a bola deveria estar. Calçava a moeda por baixo com chiclets para dar o desfoque que combinasse com a cena e o gol estava ressucitado. Era a pós-produção da época.

Este era um truque do arco da velha, e o autor ficava envergonhado quando o assunto era comentado no Departamento de Fotografia do jornal.

Outro dia ouvi a seguinte história de um tratador de imagem:”…o sujeito fotografou a modelo em cima de um morro em Campos do Jordão, numa luz terrível. Tirei a modelo e tratei o fundo, todas as sombras, depois coloquei a modelo no lugar. Voce não acredita, ficou uma maravilha”. Falar o que?

O Fotoshop é o máximo. Tanto faz a ferramenta. O que interessa é o compromisso que cada um tem com a sua alma, com seus princípios.

As ferramentas a disposição podem, se quisermos, mudar completamente o mundo real que o nosso olho registra com naturalidade e isto tem tirado o sono de muitos fotógrafos.

Acho que mexer muito em foto não dá inferno, mas tambem não garante o céu.

 

 

 

 

8 Comentários

vitor nogueira   em 1 junho, 2009

Pedro, concordo total com a sua opinião. Claro que a manipulação de fotos tem suas limitações à medida que podem alterar os fatos. Mas, corrigir um contraste, ressaltar um ponto que estava escondido por sombras ou altas luzes, como vc disse, não vai levar niguem pro inferno.
Abraços,
Vitor

Moizes Vasconcellos   em 1 junho, 2009

Tá dado o recado Martinelli! A borduna caiu até suave,com carinho no côco dessa curuminhada da dita arte final. Duas coisas: O problema é se o caboclo se esquecer da receita do que fez na foto, ai p fazer outra vai ser um parto… E vamo acaba com esse negocio de namoro p internet!!! Pois o primeiro encontro pode não ser exatamente com a pessoa que enviou a foto!!! he he….
Um abraço!

Laura Cantal   em 2 junho, 2009

acho que puxar um assunto paralelo a este, também será valido, e o farei com uma pequena historia pessoal:
sempre adorei a foto O Beijo, de Robert Doisneau, sempre fiquei pensando comigo e com a minha ignorancia que momento lindo e significativo, em meio a pessoas apressadas, que um fotografo tinha tido a sorte de fotografar! talvez, até, essa sorte não fosse apenas sorte….
até que eu descobri que a foto fazia parte de um ensaio fotografico…
preferia mil vezes nao ter descoberto isso…

o que voce, pedro, acha de montar dessa maneira as fotografias? Assim tambem nao se pode ferir a foto tanto quanto com o fotoshop?
sua essencia, sua poesia…

abraços

Pedro Martinelli   em 2 junho, 2009

Laura,
Acho que fotografia é liberdade e independência, o artefato utilizado é o de menos. A Justiça Final se encarregara de julgar, como voce fez com o Doisneau. Fez ele despencar do céu direto para o inferno, sem direito a escala no purgatório.

Fátima Rocha Perini   em 2 junho, 2009

É muito estranho… Havia uma enorme luta para que a fotografia fosse considerada arte, mas a “representação do real” era uma fronteira. O photoshop ajudou nessa “ruptura”. A fotografia nunca foi tão artística como nesses novos tempos…
OBS : Pedro, você disse tudo e seu texto é agradabilíssimo!

Armando Vernaglia Jr   em 2 junho, 2009

Olá Pedro, belo texto. Sempre vi o photoshop como ferramenta, da mesma forma que os “velhos” truques de laboratório. Afinal, fotografia é uma forma de expressão, assim como a pintura, a música e a poesia, se na pintura nunca ninguém reclamou de uma escolha de cores não ser real, ou se numa poesia nunca foi dito que uma forma de dizer não era válida, porque na fotografia a criação não teria a mesma liberdade?
Parabéns pelo blog, e pelo seu trabalho, sempre inspirador.
Forte abraço,
Armando Vernaglia Jr

Eduardo Chaves   em 8 junho, 2009

Olá

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O objetivo é criar um canal de discussão sobre fotografia digital e analógica para amadores e profissionais que se interessam pelo poder das imagens. Criar uma “colcha de retalhos” com muita informação sobre o mundo dos cliques.

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Abraços

Eduardo Chaves
Contatos: (11) 9126-1712 / (11) 8191-8790
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beth lorenzotti   em 15 junho, 2009

A propósito disso tudo e do Doisneau, vocês adorariam uma expo na Bilioteca Nacional da França chamada Controverses, acabou agora em maio. Esse tipo de de manipulação em discussão: 80 fotos controversas, entre 1840 e 2007. A do Doisneau inclusive. A mais impressionante, entretanto, para mim, foi aquela da bandeira comunista flutuando sobre o Reichstag, em 2 de maio de 1945.Foi retocadissima, pois na original o soldado tinha dois relogios, um em cada braço, naturalmente furtado de um solado alemão, e a bandeira nao flutuava.
A foto ficou linda, depois, mas…
Um pesquisador francês afirmou: “em matéria de fotografia, nós entramos na era da suspeita”.
Disse que não é mais a questão da verdade que se coloca: a fotografia não é mais somente um eseplho do mundo, mas é tambem um ator dos debates e das desordens do mundo”.
Interessante, hein?

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