Arquivo / julho, 2010
Paisagem morta
As estradas de São Paulo são um “tapete” como diz um amigo que se sente em uma “free-way” de Los Angeles quando viaja pelo interior. Realmente é um conforto mas, do ponto de vista de imagem o cenário ficou monótono, sem vida, insosso. Não se vê uma alma. A chegada da cana mudou a paisagem mas trouxe gente de todos os cantos do paÃs, os bóias-frias que podiam ser vistos nos acostamentos, circulando nas carrocerias de caminhões, no meio do campo com a cara preta de fuligem das queimadas, com suas roupas coloridas, sobreposições geniais que nunca foram entendidas pelos nossos fashionistas. Em 1975 fiz um ensaio fotográfico sobre os bóias-fria da região de Itapira. Convivi semanas com as famÃlias que esperavam o caminhão para ir cortar cana embaixo de um poste com a única lâmpada da rua. Não consegui expor o contorno daqueles rostos angelicais por falta de luz mas ficava olhando aquelas expressões e ouvindo as conversas. Com o tempo fui entendendo que para mim fotografia não é só uma imagem estampada em um folha de papel. Fotografia é também convivência e admiração, respeito com a gente do campo, com a paisagem, com meus princÃpios em relação ao meio ambiente, com o caráter da chapa. Isso mesmo, nas minhas contas foto tem caráter. Tem uma hora que não se vê mais distinção, então pra que apertar o obturador? Estas são fotos que fiz a 35 anos atrás, quando ainda não éramos uma Los Angeles mas, o interior tinha histórias e fotos de encher o quadro de emoção.Com a chegada das máquinas estas figuras humanas únicas, distintas, sumiram do mapa e a paisagem do interior foi virando uma natureza morta interminável  sem os bóias-fria.
Asfalto, cana e eucalipto
A fotografia é um bom medidor das transformações do nosso cotidiano. Eu não tenho jeito, vivo fazendo comparações. Bom, eu guardo as fotos, vejo, revejo e choro as mágoas. Agora, neste final de semana não fiz outra coisa enquanto dirigia os 480 quilometros da Rodovia Anhanguera até Uberaba. Lembrei das primeiras matérias que fiz para o Caderno de Economia do jornal O Globo sobre a erradicação dos cafezais depois das grandes geadas de 1970. A terra vermelha estava presente em toda parte, as cidades eram vermelhas, os carros, as roupas, tudo. A terra era sinal de gente, de vida. Aquela terra dava foto. Agora a cobertura é verde clara e não faz contraste com a terra porque a cana sufoca todos os espaços. Quando não é a cana é o eucalipto e a paisagem não muda. A estrada é impecável, o acostamento parece um jardim mas não tem vida. Não se vê uma pessoa, é um sobe e desce de cana interminável. Os bóias-fria, os podões, as garrafas térmicas Invicta, as marmitas areadas , a moda colorida de sobreposições, onde foram parar aquelas figuras humanas únicas? O interior de São Paulo virou um canavial com um asfalto preto no meio.
Contato, lupa e gaveta
Eu sempre fui fotografando e colocando na gaveta. Nunca fui muito de finalizar o trabalho com cópias. Revelar, fazer o contato e editar é suficiente. Não tenho necessidade de ver o trabalho copiado.Eu sempre lembro da foto boa no contato, circundada com o vermelho do lápis dermatográfico ao lado das vizinhas, nunca isolada num quadro. Acho que é porque que eu fui criado com a lupa no olho e, nas minhas contas, foto boa é para ser publicada. A parede nunca me entusiamou muito. Minhas fotos costumam ficar muitos anos na gaveta, dormentes. Hoje não, elas circulam mais porque ficam no computador digitalizadas, sairam da escuridão para ser manipuladas na luz do dia, nas telas de computador.
O resultado de uma foto aberta em tela cheia no computador é interessante, eu gosto da leitura. Melhor ainda é poder publica-la em minutos. As vezes me sinto fotografando para o jornal como no último domingo na Feira Boliviana no Pari onde fui comer umas saltenãs. Voltei para casa entusiasmado com as fotos que fiz com a câmera do meu amigo Alfredo Divani e quase derrubo o post que já estava pronto para não perder a atualidade. Resisti mas, se passar desta semana vai ficar igual a viagem que fiz com Carlos Dória em 2006 para a Rioja que esta para ser publicada desde que comecei com o blog e até hoje nunca encaixou, não sei porque. Acontece que tem três ou quatro chapas bem boas, que estão no canto direito do desktop a meses esperando a vez que a gaveta deixou melhor com o tempo, Depois de amanhã vou publica-las,
Serra do Mar: palmito juçara e cambuci
Uma picanha e uma frigideira velha, preta de tanto uso no fogão a lenha feito de quatro blocos alinhados com uma trempi apoiada em cima de um par de paus de mato. Alex Atala esta a 70 quilometros do DOM, o 18º melhor restaurante do mundo. Ali não tem Pacojet, assistentes e ele esta despido de seu tradicional avental branco de chef. Ele acabou de sair de uma picada da Mata Atlântica, a nossa serra do mar deslumbrante, o matão para os Ãntimos. A conversa com os amigos é sobre o mato e os macucos.
Enquanto conversa Alex pega a picanha e faz cortes transversais como se pode ver na foto. De um golpe só coloca os pedaços agrupados na frigideira, em pé, com a gordura para baixo e deixa fritar lentamente para derreter a gordura, depois tomba os pedaços e deixa entrar no ponto. Tudo isto é feito naturalmente quase sem tocar na carne, uma arrumação espontânea de um “food stylist” nato.
No fim da tarde juntamente com o amigo Fernão Mesquita descemos a serra e paramos no primeiro boteco do pé da serra para tomar uma pinga com cambuci. O teto do barzinho ficava a um palmo da cabeça do Fernão. Em cima do balcão um vidro enorme destes de 5 litros de palmito juçara era vendido por R$ 25 reais. A mulher nos serviu um copo americano cheio de pinga com cambuci e outro de pinga com orvalha e abriu um vidro de palmito pequeno e colocou em uma travessinha destas “made in china”. Temperou com sal, espremeu limão cravo e regou um fio de óleo Maria.
Avançamos no palmito alternando goles de pinga enquanto resmungavamos inconformados com a pouca valorização dada as nossas relÃquias gastronômicas.
“E tem gente que gasta fortunas para ir a Alba comer e nunca provou um palmito juçara”, reclamou Alex enquanto pedia que a mulher abrisse mais um vidro de palmito. Eu queria levar um vidrão para casa. Era barato demais e eu ia me esbaldar, matar todas as vontades. Fernão e Alex acharam melhor não. Aquilo era um estÃmulo a predação mesmo com a mulher sinalizando varias vezes que precisava de 50 reais naquele dia. Abrimos outro vidro e comemos mais palmito, alvo, macio, único e bebemos mais, desanimados com a falta de perpectivas para aquele mato que poderia ser muito mais bem cuidado e aproveitado por todos nós. Uma pena, no fundo o que nós queriamos naquela hora, se pudéssemos, era pegar os brasileiros um por um pelo braço e mostrar o caminho daquela beleza de serra, depois servir o legÃtimo palmito juçara e uma pinga com cambuci. Queriamos compartilhar com todos aquele gosto que, nas nossas contas, infelizmente, esta com os dias contados.
Hotel Delano - Miami
Apartamento do hotel Delano de Philippe Starck em Miami usado como locação para ensaio fotográfico da revista Playboy em 1992. Dentro do elevador do hotel uma luminária e um projetor de slides mostrava retratos em preto e branco.



































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