Peixe bom, gente bruta
Ultimamente tenho controlado bastante a alimentação com a ajuda de uma nutricionista. Na verdade tenho gostado  mais das conversas sobre alimentação do que sobre a dieta propriamente dita, claro. Em casa tudo corre as mil maravilhas mas, é só  por o pé na estrada e o juizo acaba. Primeiro porque o Brasil é uma tentação. Cheio de diabinhos espalhados por todos os cantos que vivem puxando a gente para o mal, ou melhor, para o bom caminho. “Aproveite e reforce no peixe”, me recomendou a nutricionista quando eu disse que estava viajando para a amazônia.
Nem pensar, pensei, sem a menor vontade de dar maiores explicações sobre os porques no tratamento dado aos peixes em todas as fases desde o momento da pesca até a chegada ao mercado.  Porque a maioria não sente diferença no gosto e muito menos no cheiro e tambem não quer nem saber como se trata os pescados por aquelas bandas. Parei com as ladainhas, tenho várias mas, tenho editado. Os que adoram um “peixinho” acham que eu sou um chato com a minha mania de higiêne. Até já fiz teste de “pitiu” com jaraquis entre os tripulantes do meu ex-barco o Sebastião Borges. Consumir peixe fedido acostuma. O peixe não chega estar estragado mas perdeu a delicadeza, o frescor, o brilho. Peixe fresco não tem cheiro. Nenhum. Um peixe passado pode passar o “pitiú” ou  ”maresia” como se diz  no litoral de São Paulo se estiver no mesmo gêlo dos outros peixes bons.  Na amazônia o peixe é jogado dezenas de vezes, socado em porões ou caixas apertadas com gêlo insuficiente, manuseado no chão de pontões onde são descarregados gasolina e óleo diesel. Nos mercados das cidades, onde as temperaturas passam facilmente dos 35 graus, ficam expostos em bancadas o dia todo sem refrigeração. O manuseio é bruto, não estimula o consumo.
Pior que isso, o peixe de água doce é muito mais delicado e a grande maioria que vai a amazônia come, adora e não sente o tal pitiú, esta catinguinha, as vezes uma catingona insuportável que pode ser sentida a distância. Uma pena porque cuidar da água é manusear com dignidade e higiêne o alimento produzido nestes rios que a gente diz que admira tanto,  se orgulha de te-los mas, trata com desdém, vive atirando lixo e esgôto dentro deles e ainda não entendeu que nossos rios ainda produzem peixes nascidos e criados  nas suas águas, absolutamente orgânicos, os últimos que ainda não estão sendo tratados com ração e não vivem em fazendas de criação, por enquanto.  Por isso merecem ser tratados com respeito. Ou será que um salmão de uma fazenda de criação chilena, engordado com ração e betacaroteno para ficar mais alaranjado é mais saudável?




















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