Arquivo / janeiro, 2010

São Paulo, um amor eterno

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Eu nasci na Pró-Matre na Avenida Paulista no dia 1º de Janeiro de 1950 e fui registrado na vizinha Santo André onde fui criado.O meu pai disse para o escrivão que eu nasci as 15,30 mas, minha mãe me dizia que o parto tinha sido depois da meia noite porque ela lembrava de ouvir a gritaria vinda da corrida de São Silvestre que na época dava a largada a meia noite. Por isso até hoje o meu horóscopo chinês não pode ser feito.

Meu pai queria me ensinar caçar macuco na Serra do Mar que ficava praticamente atrás da nossa casa e minha mãe queria companhia para tomar chá no Mappin, almoçar no Massadoro, comer um docinho na Cristallo da rua Marconi. Eu queria tudo, queria bater perna no mato com meu pai e na cidade com a minha mãe. Hoje, nas minhas contas tenho certeza que é assim que se aprende a fotografar. Quando alguém pega um garoto pela mão e sai apresentando pacientemente a cidade, os amigos, o mato, os bichos, os cheiros, as pessoas, os estrepes, as comidas e suas histórias. Fotografia é isto, repito, nas minhas contas, quando se tem vontade de guardar em uma caixinha todas estas histórias, eternamente.

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Avenida Celso Garcia

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A bisteca da São João

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Ainda continua lá a molheira de aço inox com vinagrete de cebola e tomate e o janelão de vidro que dá para a calçada da Avenida São João. É a Churrascaria Mester, praticamente ao lado do Filé do Moraes. Um clássico das madrugadas paulistanas, frequentado na década de 70 por jornalistas depois do fechamento dos jornais. Os garçons ainda usam gravata borboleta e o churrasqueiro levanta com as duas mãos uma enorme bisteca com osso para coloca-la no braseiro de carvão que fica no salão. O tempero continua absolutamente igual. A bisteca é servida com salada de agrião e batata frita, se o freguês preferir poder vir com arroz e feijão. Sente ao lado da janela que tem um filme azulado, leve uma camerinha e deixe ali, ao lado da molheira e assista a cidade passar. Imagine, do outro lado da rua era a Sopa do Papai e a Salada Record.

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Aldeia Kranhacãrore

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Depois do contato com os Kranhacãrore Claudio Villas Boas voltou para o Posto Diauarun no Xingu e se aposentou juntamente com o irmão Orlando. A Funai enviou o sertanista Apoena Meirelles, filho do sertanista Chico Meirelles que ficou conhecido por ter  contatado os índios Xavantes. Apoena tinha um estilo agressivo, chegou ensinando os Kranhacãrore empunhar um revólver calibre 38 e mandava os índios descarregar a sacaria do avião. Esta fotografia foi feita na primeira vacinação na aldeia principal que ficava a um dia de caminhada do nosso acampamento, na margem direita do rio Peixoto de Azevedo na divisa do Mato Grosso com o Pará.

Lambari, arroz e salada de tomate

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A cidade de São Paulo, ao contrário do que muita gente pensa, tem muito mais mata virgem perto do centro da cidade que muitas capitais da Amazônia e para sorte da bicharada a molecada que antigamente campeava de estilingue, gaiola, visgo, armadilhas e outros artefatos de predação hoje esta nas salas de bate-papo. A passarada esta cada vez mais livre e as gaiolas estão desaparecendo. Meu amigo Fabio Morganti gasta dúzias de bananas e kilos de maças por mês para alimentar saíras, papagaios e sabiás que comparecem diariamente no seu apartamento na Oscar Freire.

Outra coisa boa da cidade é a proximidade com as diversas represas que estão no entorno da cidade. Na semana passada fui a represa de Paraibuna pescar lambari com meus amigos Gustavo e Jacinto, velhos companheiros de mato e de muitas pernadas sertão afora. Eu queria fazer umas fotos dos peixinhos, imaginava um still, não sei, ainda não tenho nada formatado, poderia encaixar no projeto pessoal que esta demorando para desenroscar, as vezes não desenrosca nunca. Mas a idéia era rever os amigos e comer uns lambaris, claro. Pescamos de dentro do bote, muitos lambaris, um-atrás-do-outro, pinguinha, uma-atrás-da-outra, uma paz, um silêncio, histórias, imagina, tinha um matão maravilhoso na nossa frente. O Jacinto fritou os lambaris  e fez o arroz bem fritinho “para não ficar branco lavado” e a salada de tomate. Fiz algumas fotos mas estas que publico aqui são as que eu mais gosto no final das contas, mais do que aquelas embicadas para alguma coisa mais seria, quero dizer, com segundas intenções, de trabalho e aquele blá, blá todo que acaba enchendo um pouco exatamente porque tem a pretensão de ter que dar certo e acaba na gaveta do limbo eterno.

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Gente X Mato

deitado-no-aslfaltoGente X Mato  esta sendo vendido diretamente por mim. O livro pode ser assinado e os pedidos deverão ser feitos pelo e-maill -  pedromartinelli@uol.com.br - o preço é de R$ 50,00 e  serão enviados por Sedex.

Risco no prato, até quando?

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Toda vez que um cozinheiro resolve usar alguma coisa do baú de conhecimento culinário que os europeus, índios e negros formaram com o descobrimento do país os brasileiros estranham e compreendem muito pouco. O Brasil se conhece cada vez menos. O chef Alex Atala volta e meia apronta uma destas. Inventou moda com o cambuci na terra do cambuci. Criou um sorvete que deixou muita gente de boca aberta e serviu para refrescar a memória do paulistano que tinha esquecido que aqui era difícil um moleque ir para escola sem passar por um pé de cambuci ou orvalha.

Esta certo que o Brasil é muito grande, difícil, tem muita coisa para ver, por isso eu acho que desistimos de tentar entende-lo. Talvez seja por isso que somos uns Maria-vai-com-as-outras e resolvemos dar um pulão, passando por cima do conhecimento da nossa gente sobre as terras, bichos, águas e peixes sem ter a menor vontade de estuda-los a fundo. Continuamos batendo cabeça, desprezando o brasileiro que ainda vive no campo. Achamos que é gente que não vale um tostão furado. Não temos vontade e muito menos humildade para ouvi-lo, mas quando interessa e de acordo com a moda, vivemos repaginando seu modo de viver sem a menor vergonha, copiando descaradamente seus pratos e suas idéias, pior, sem dar crédito. Embicamos direto no moderno. Hoje, preferimos e entendemos mais de espumas, crostas, camas, vapor e pacojets do que de um simples peixe moqueado que é um clássico das baixas temperaturas desde que o homem descobriu o fogo. Alex esta entre os 20 melhores chefes do mundo. Conquistou esta posição dando murro em ponta de faca, driblando estereótipos e formando opinião. Vai ter que continuar suando a camisa para mostrar que comida boa não é risco no prato, muito menos uma par de cebolinhas cruzadas em cima da comida. Comida boa precisa de cultura, história e reconhecimento.

Revirando o arquivo

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1970 - Banca de jornal no centro de São Paulo

Moradia dos brasileiros

moradia-moocaBarra Funda-SP

Tempo virado

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Não me lembro de ter visto a cidade com tanto tempo virado como foram os últimos dias de 2009 e o começo deste ano. Para fotografar, a luz destes dias é a melhor que tem, é a que não se vê. Aquela que é “um breu” é ótima, principalmente quando se tem preto e branco na mão. O sol esta lá, tem contra-luz mas, tudo muito mais suave, delicado, nada é obvio, explícito. Ai é que esta, tem que prestar atenção e expor direitinho, senão não vem. Se o pedido, o “briefing”, não pedir sol ou aquela “luzinha amarelinha do final de tarde”, batidissíma, é uma boa oportunidade de se fazer alguma coisa diferente se o fotógrafo não morrer de medo. Cêu azul é uma armadilha. As chances de fazer uma mesmice insossa são enormes.