Rio Iriri
O Rio Iriri corre paralelo ao Rio Xingu na Terra do Meio no Pará, antes de entrar no rio Xingu na proximidades de Altamira. Nas suas cabeceiras esta a aldeia Panara.
O Rio Iriri corre paralelo ao Rio Xingu na Terra do Meio no Pará, antes de entrar no rio Xingu na proximidades de Altamira. Nas suas cabeceiras esta a aldeia Panara.
Em dezembro de 1985 a repórter Nely Caixeta e eu fomos ao Iraque fazer uma matéria sobre a troca de automóveis Passat por petróleo no Iraque. O escambo era feito via Jordânia. O paÃs estava em guerra com o Irã mas em Bagdá tudo parecia normal, a não ser quando se via as baterias anti-aéreas postadas nas cabeças de ponte e a ruÃna do edifÃcio das comunicações que tinha sido bombardeado por caças iranianos na noite anterior a nossa chegada.
Nely fez uma lista com os assuntos que queriamos abordar. Entre eles uma entrevista com Saddan Hussein e uma visita aos prisioneiros iraquianos.
O presidente não deu certo mas visitamos uma prisão que ficava no centro de um emaranhado de arame farpado com um tanque Brucutu brasileiro de cada lado com o canhão apontado para a prisão. Não havia celas no edifÃcio, os presos circulavam livremente e, em cada ambiente uma televisão propagandeava as maravilhas do governo do Iraque.
O sujeito que pegar um avião da Gol em São Paulo com destino a Santarém vai voar 5,20 horas. Depois de cada sobe e desce é servido um pacotinho de amendoim e uma bebida. “Da próxima vez vou trazer uma matulinha de casa”, me disse a senhora que estava ao meu lado. Ela não via a hora de chegar, estava com saudade da casa, das galinhas, da horta, do “meu refogado com açai”. Achou a comida de São Paulo diferente e muito boa, “agora, aquele peixe de mar não teve jeito, sem caldo e sem farinha, eu não gostei”.
Pois é, eu que estava chegando só pensava em comer algum peixe escaldado com cheiro verde e uma farinha grossa amarela com umas gotas de pimenta murupi. Tambem poderia ser um tucunaré frito com baião de dois num boteco na beira do rio. Só isso, mais nada. Bati perna em volta do hotel no centro da cidade que fica na beira do rio Tapajós atrás do meu peixinho mas só encontrei alguns carrinhos de lanches que serviam hot dog, coxinha de galinha, bolinho de carne e salsicha empanada. Como pode? Eu estava ao lado de um rio de água verde esmeralda que corre paralelo ao rio Amazonas, o maior rio de água doce do mundo e não vi nenhum peixe, nem vivo, nem morto, nenhum para contar história. No mercado da cidade, fora a banana pacovan, nada que não pudesse ser encontrado no Mercado de Pinheiros. Resolvi entrar em um supermercado e só encontrei farinha da terra a granel. Aliás, muito cara, R$ 3,50 o kilo.
Dali para frente a vida só ia piorar porque quase tudo fecha na hora do almoço e a minha fome apertava. Topei com um enrolado de presunto e queijo muito vistoso mas resisti. Fui para o hotel e acatei a sugestão do garçom, pedi um “Filé do Barão” que foi servido com presunto, queijo, salada e batata frita, este da foto acima. Para beber, nenhum suco, nem polpa congelada, só água, Guaraná ou Coca-Cola.
Como só me sinto chegado em algum lugar depois de comer algum prato de comida regional tinha a esperança de comer alguma coisa da terra a noite. Que nada, me virei como no almoço e por pouco não entrei no spaguetti a bolognesa do room service. No dia seguinte fui para o mato e tudo mudou.
Esta fotografia foi feita durante o espetáculo “Luzes e Som” no Museu do Ipiranga em 1975 e foi exposta no Masp em um grande painel na abertura da exposição “São Paulo 76 MASP” com a participação de vários fotógrafos. A curadoria da exposição foi feita pela fotógrafa Claudia Andujar.
“O umbigo da castanha do Pará é um santo remédio para estancar hemorragia em caso de aborto, ou qualquer outro sangramento da mulher. Outra coisa boa é ferver as duas pedrinhas que a curvina tem na cabeça. Quem usa isso é o pessoal do mato que vive na beira dos rios. O pessoal da rua não sabe disso não”. Valdivino, Terra do Meio, entre os rios Iriri e Xingu, no Pará.
Quando a visibilidade é boa em qualquer vôo sobre a Amazônia meu nariz fica colado na janela do avião e inevitavelmente uma máquina de calcular imaginária faz contas sem parar. Faço todo tipo de conta. Contas de ocupação com casas e vilas, do emaranhado de ramais que ligam fazendas, sÃtios, derrubadas e cabeças de gado. Com o tempo se aprende a distinguir desde sete mil pés de altura a diferença entre uma roça de banana e mandioca. Colunas de fumaça sobem nas alturas se confundindo com as nuvens.
Não precisa entender de mato, de Amazônia, mas esta é a hora que a informação recebida na “civilização” entra em contradição com o que se esta vendo lá de cima do avião. Até quem nunca viu uma lavoura vai sentir um frio na espinha quando ver uma plantação de soja encostar na beira de um rio virgem, de águas cristalinas. Se fixar o olho para baixo, 90 graus,  vai ver pequenas manchas de terra vermelha. São picadas de madeireiros. Eles trabalham em baixo da mata como formigas.  O satélite não tem a menor idéia do que esta sob as copas das árvores.  Uma hora de vôo é suficiente para baixar um desânimo danado, fica-se com uma sensação de impotência enorme. Pior, descobre-se que é tudo história para boi dormir a ladainha decorada dos especialistas em discurso sobre manejo sustentável.
Avião no chão e o cheiro de mato virgem úmido traz um suspiro de conforto e felicidade. Em seguida o subconciente, que não perdoa, faz a pergunta inevitável: até quando este rio vai correr em paz povoado de tucunarés, trairões, bicudas e piraras? Sera que vai ter mato para andar piando macuco?
Rosquinhas da Vó Cida antes de entrar no forno em São José do Rio Pardo
Por tráz de uma foto de decoração em estúdio ou “externa” uma produtora de fotos tem que “bater lata” dentro de uma Kombi muitos dias em São Paulo atrás de objetos para compor cenários, carregando debaixo do braço uma dezena de referências publicadas em revistas, principalmente estrangeiras. As orelhas de post-it marcam as principais matérias, as edições especiais fotografadas na Europa. As referências deveriam servir para discutir a pauta da edição mas, na maioria das vezes são copiadas integralmente.
Nas fotos para revistas de decoração e arquitetura a Kombi lotada de objetos fica de prontidão na frente da casa que está sendo fotografada. Ao lado dela tem a Kombi do fotógrafo com equipamento suficiente para fazer a noite virar dia. O fotógrafo é especialista, deixa a cena aconchegante faz uma bela luz do dia entrar pela janela mesmo que o dia esteja nublado. Manda alinhar todos os pés das cadeiras da mesa de jantar e esconder o fio do abajur. Pede para tirar um quadro que na câmara ficou torto e manda o assistente apagar a luz da cozinha que é florescente. Só falta uma coisa: um toque de presença humana. Imediatamente a produtora vai até a Kombi e volta com um xale, um livro e uns óculos. Ajeita o xale em cima do braço de um sofá, coloca o livro e os óculos em cima e, “pronto, vamos clicar”.
Na sala de jantar “é chic” colocar no canto de uma mesa uma toalha caindo com uma fruteira ao lado. Quem não viu esta foto em alguma revista? Se for casa de campo um cesto de vime com legumes, réstia de cebola e alho pendurados no canto de uma parede. São cenas tÃpicas de cidade cenográfica da novela das oito.
Quando se trata de formatar, construir uma imagem o subconsciente vai buscar o que esta mais a mão, o que faz parte da usura do dia-a-dia e nisso a novela é a nossa referência mais próxima. Até ai tudo bem, é novela. Acontece que o olho enxerga de esgueio, de viés, de canto de olho. A gente acha que não esta vendo, mas esta sim e, quando menos se espera estamos com um livro e um par de óculos na mão querendo fazer um sofá virar gente.
É que sem querer, aos poucos vamos absorvendo instintivamente esta estética de estúdio de televisão que impõe um padrão de gosto linear, construÃdo distante da vida real do paÃs, cheio de estereótipos que não é uma coisa nem outra. É cópia mal feita e atrapalha a leitura do Brasil real.
O sertanista Apoena Meirelles chegou com Ãndios Xavantes no rio Peixoto de Azevedo para fazer a vacinação, consolidar o contato e substituir Claudio e Orlando Villas Boas que estavam se aposentando. Nesta primeira fase os Ãndios resistiram bem ao contato com o branco mas quando a estrada se aproximou da aldeia os Kranhacãrore cairam doentes e 2/3 da população estimada em 300 Ãndios morreu.
Navegar pelos grandes rios da Amazônia é uma chatice para quem acha que mato, água e céu é tudo igual.  Viajar em rio de água”branca” (marron) com céu encoberto, cinza, o verde da floresta vira uma faixa estreita insignificante entre os dois. Não há cor. A Amazônia é monocromática. Para os recém-chegados da cidade grande ficar parado assistindo a paisagem passar é pouco. A expectativa criada antes da viagem é alta por isso o foco são as coisas que precisam ser vistas e ticadas da lista de pendência mas, não se vê um passáro, a distância da margem é grande, e zero sinal de algum bicho. Onde estarão os Ãndios.
Com o tempo a “zoada” do motor se encarrega de ir colocando os mais impacientes nos eixos. ” O motor embaralha as idéias e o sujeito se acalma”, diz o comandante Almir. É verdade, o primeiro sintoma de calmaria é parar de perguntar a hora de chegada no destino e o programa do dia seguinte.
A cura total se dá no primeiro mergulho em uma praia de areia branca do Rio Negro e entrar no Rio Jaú  para assistir num fim de tarde a lâmina d’água espelhada que fotografa e imprime o céu azul nos finais de tarde.
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