Arquivo / outubro, 2009

Revista Veja

fechamento

Foto da redação da revista Veja no 6º andar do edifício da Editora Abril na Marginal do Tietê. Os fechamentos de quinta e sexta-feira varavam a madrugada. As editorias eram divididas em baias e a Fotografia ficava no meio da redação para facilitar a comunicação com os editores. Nesta foto a baia da Editoria de Brasil com Almyr Gajardoni e em segundo plano a baia da Editoria de Artes e Espetáculos com Okky de Souza. O pé que esta em cima da cabeça do Almir é de um eletrecista que fazia a manutenção das luminárias em pleno fechamento da revista.

Ektachrome

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Batata chips

chips

Na Amazônia a caboclada acorda e pega o rumo do rio para tomar o primeiro banho do dia. É tradição indígena. A maioria da índias faz o parto sozinha, corta o cordão umbidical e em seguida leva o nenê para um banho no rio. Hoje, a molecada acorda liga a televisão e depois vai “banhar”. Na volta toma o café na frente da televisão e se a comunidade tiver óleo diesel para o gerador a televisão ficara ligada até a hora de dormir.

A antena parabólica e a placa de energia solar acabaram com o abismo que separava a informação entre o sul e o norte. A televisão tem alterado costumes e isso pode ser medido nas prateleiras do comércio, na carga dos regatões que abastecem as famílias isoladas ou na quantidade de embalagens de biscoitos tipo chips espalhados por todos os cantos de uma comunidade, nas escolas, boiando nos igarapés. Difícil caminhar em alguma picada e a vista não encontrar um pedaço de alumínio brilhando. Longe de achar que nós, os caraíbas aqui da grande cidade fazem o dever de casa direito. É só ver como fica o rio Pinheiros depois de uma chuva boa, mas estamos sempre prestando atencão no quintal do vizinho.

É que o nosso vizinho amazônico é o cobaia da tal sustentabilidade mas ele ainda não sabe como vai funcionar este modelo revolucionário que vai trazer dinheiro sem sofrimento para o meio ambiente. Por enquanto, não sei se alguém desta turma de ambientalistas já pensou nisso, cada pacotinho de batata chips desta prateleira vai ser pago com a esfolação de algum bicho, árvores tombarão e peixes serão malhados. Alguém vai ser arpoado, cortado, espetado, atirado, derrubado, colhido, vendido.

Moradia dos brasileiros

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Tucunaré a doré

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Este é o Almir, companheiro e comandante do Taba com um belo tucunaré pego no lago Acará no rio Madeirinha, no Amazonas.  Com o Taba, uma casinha muito confortável,  navegamos seis anos  para fazer o livro Amazônia O Povo das Águas. Juntos, dobramos muitas curvas de rio e tivemos o privilégio e o prazer de comer peixes frescos, pescados por nós em lagos de águas pretas, rios translúcidos de água esverdeada como o rio Sucunduri. O tucunare é um peixe “alegrinho” dizia o velho amigo Adamo Caetano. É um peixe para ser pescado com isca artificial de superfície para que o tucunaré mostre toda a irritação e violência com que ataca a isca. “A batida de um bicho grande em uma isca de superfície é igual jogar um bujão de gás de 20 quilos dentro d’água”, diz Gustavo dos Reis Filho, o Gugu, um grande pescador esportivo.

Mas, eu e o Almir tinhamos que decidir o que comer antes de sair para pescar. Quem escolhia o prato era sempre ele, o comandante do barco. A noite podia ser macarrão ou uma caldeirada de tucunaré. Para a caldeirada dois tucunarés de meio quilo cada era suficiente para os dois mas nem sempre conseguiamos acertar no tamanho.

Certa vez, na boca do Lago Baependi, no rio Negro, vimos tucunarés cercando um cardume de peixes no final da tarde. Quando atacavam podiamos ve-los inteiros saltando fora da água, “ali só tem gente grande” dizia o Almir. Pegamos vários. todos com mais de cinco quilos, nenhum que coubesse no nosso ensopado. Soltamos todos e ficamos sem caldeirada. O jantar foi um espaguete a carbonara, um dos preferidos do Almir.

O prato clássico do barco era o tucunaré a dorê que só podia ser comido no almoço para que o barco não ficasse cheirando a fritura durante a noite. Tinha quer ser peixe com mais de seis quilos,  para poder fazer postas de quatro dedos de altura que, depois de fritos, se soltasse em lascas úmidas.  Para comer tucunaré a dorê escolhiamos um bom barranco com sombra para atracar o barco e rezávamos para chover a tarde toda para não ter que trabalhar.

Moda

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Bernardo Bertolucci

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Para eleger o sucessor do papa Paulo VI mais de cem cardeais ficavam trancados a sete chaves na Capela Sistina para fazer duas votações por dia. A votação da manhã terminava as 10,30hrs. e o resultado era anunciado no Vaticano através de fumaça que saia por uma pequena chaminé em um telhadinho anexo a monumental Basílica de San Pietro. A praça lotada de peregrinos aguardava fumaça branca que quer dizer “habeamus papa”. Quando a fumaça era preta a multidão desaminada abandonava a praça e voltava para a eleição da tarde que terminava as 16,00hrs. Entre uma fumaça e outra a revista Veja me mandou fazer uma foto do cineasta Bernardo Bertolucci para a sessão de Gente da revista. Ele tinha quebrado os dois cotovelos e dirigia o filme “1900″ na Cinecittá.

JB Scalco

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O fotógrafo JB Scalco fez grandes coberturas de esporte. Gaúcho de Porto Alegre foi formado em uma bela escola de jornalismo. Ele era o melhor fotógrafo de futebol do país, sabia se colocar no campo, entendia de futebol e as comemorações de gol aconteciam sempre do seu lado. Ele sentava no campo em função da pauta e de acordo com o tipo de jogo de cada equipe. Era um especialista.

Diziam as más línguas, invejosas, que ele combinava com os jogadores para comemorar o gol na frente dele. Bobagem, os jogadores sempre correm para o lado da televisão, todo mundo sabe disso. Hoje a moda é mostrar o anel de noivado para a câmera ou erguer os braços para o céu.

Scalco, que não era bobo nem nada ficava do mesmo lado das câmeras da Globo, simples. A diferença dos outros fotógrafos é que ele dominava como ninguém uma tele-objetiva. Suas fotos tinham foco cortante, numa época que o foco era feito na mão. Ele ia buscar a cena antes de todo mundo, tinha ôlho, enchia o quadro, enquanto a maioria batia cabeça e era tão previsível quanto a televisão. Pobre do fotógrafo que tinha um Scalco no seu rumo, para os revisteiros o “Magrão” era jogo duro.

Era o único sujeito que fotografava e via a cena ao mesmo tempo. O que foi visto não esta feito, esta é a regra. Scalco via, fazia e contava todos os detalhes mesmo com o espelho batendo na frente do ôlho.

Uma noite jantando com Ricardo Chaves, meu companheiro de cobertura na Copa da Espanha, Scalco encenou como um ator, vibrando, o lance que foi publicado uma semana depois exatamente como ele havia descrito. “Eu fiz as veias dos braços e do pescoço do Falcão estufadas, a boca aberta, ele veio gritando na minha direção”.

Muitos fotógrafos tem mania de descrever a foto  antes de ver o filme revelado. No jornal O Globo o chefe Erno Schneider sempre dava um jeito de passar perto da roda onde um fotógrafo-matraca fazia “foto falada” enquanto o filme estava no revelador. “Cadê os filmes praça, já revelou?”, perguntava quase todos os domingos para os fotógrafos que tinham coberto o clássico do Maracanã. Quando a revista Placar chegava na Espanha, uma semana depois, nos já tínhamos ouvido o “story board” completo de cada imagem. Nenhuma novidade.

Grande Scalco!

Arte de quem?

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“Espíritos de porco”

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O Jornal da Tarde colocava todos os dias uma dupla de repórter e fotógrafo no encalço do prefeito Paulo Maluf. Sem dúvida era a pauta mais divertida do jornal. Na década de 70 as redações dos jornais Diario da Noite, Estadão e as sucursais de O Globo e Jornal do Brasil ficavam muito próximas uma das outras, todas em torno da Galeria Metrópole na Av.São Luis. Depois dos fechamentos os bares da região ficavam lotados de jornalistas. As fotos de Maluf publicadas na primeira página eram ótimas. Uma melhor que a outra mas, bom mesmo era ouvir os fotógrafos descrevendo como as fotos tinham sido feitas. Só tinha espírito de porco, um pior que o outro. As estratégias utiizadas pelos fotógrafos eram aulas de um fotojornalismo que não existe mais.