Arquivo / setembro, 2009

Arte de quem?

panelas

O Padre Nosso

 

bodo

Agora, no Paraty em Foco sempre se ouvia a pergunta, quase sempre cheia de angustia, se o digital faz isto ou aquilo, se o pb digital é igual o filme ou não. Pois é, me parece que ainda tem muita gente pouco convencida de que o novo testamento é a salvação.É como se um católico de batismo se bandeasse encantado para uma outra seita e continuasse rezando uma Ave Maria ajoelhado no pé da cama toda noite antes de dormir. Os mais velhos então, ficam posando de modernos e desfiando as facilidades do novo mandamento mas conhecem o Padre-Nosso de cor e salteado e não estão totalmente convencidos de que tudo o que o olho viu  e desejou vai estar na chapa batida. Eu me incluo, claro, nesta lista dos velhos modernos e me explico.

Nas minhas contas, podem tirar o cavalo da chuva porque o preto e branco clássico, a  chapa 4X5, um filme 120 exposto de Hasselblad e a dupla infernal e insubstituível LeicaM e TRI-X são únicos. É o olho no assunto e não no menu  que determinam o terço de diafragma que faz nascer uma fotografia preto e branco absolutamente única. Não é um “P” de programa, ou um “A” de automático que vai substituir a leitura da luz  da cena que esta no íntimo de cada fotógrafo. Muito menos o grão de um negativo TMAX revelado 6400 ASA e mais dois ou tres minutos até o filme ficar com uma leve velatura.

O quintal de casa

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Ontem, eu estava parado no congestionamento da marginal do rio Tietê quando ouvi o presidente da Susano, Antonio Maciel Neto, dizer para o jornalista Carlos Alberto Sardenberg da CBN que a empresa dele vende crédito de carbono na Bolsa de Chicago por 4 dólares a tonelada. “No protocolo de Kyoto a tonelada vale de 30 a 40 dólares por tonelada”, emendou.

Se esta conta foi feita em cima dos pés de eucalipto plantados pela Susano imagina quanto poderiamos faturar se não derrubassemos a mata nativa. O pré-sal ficaria no chinelo.

A turma dos preococupados-com-o-futuro-do-planeta não sabe o que é um pardal mas vive fazendo conta sobre o nosso mato perdido. Para eles tanto faz eucalipto ou castanheira. Se for verde  tudo bem.

Estas contas são de uma frieza cruel. Tratamos a floresta nativa do país como uma comodite qualquer, zero sentimento. Conseguimos pesar uma tonelada de carbono mas somos incapazes de dar uma mão para acabar com o esgôsto a céu aberto que cruza a cidade onde vivemos. Estamos preocupados com o futuro do planeta mas não tiramos o cocô do quintal de casa.

 

Paraty em Foco

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OS LIVROS MULHERES DA AMAZÔNIA E GENTE X MATO ESTARÃO A VENDA NO PARATY EM FOCO.

A Editora Jaraqui foi criada por mim para diminuir os custos de edição dos livros que publiquei. Com isso economizei na taxa de administração cobrada pelas editoras que é de 30% sobre o valor total do projeto.

Coloquei o livro nas duas principais livrarias de São Paulo, a Livraria Cultura e Livraria da Villa porque fazem vendas pela internet e poderiam atender os pedidos do Brasil. Nada disso. A livraria Cultura, já conferi pessoalmente várias vezes, não tem o livro para pronta entrega, mesmo lucrando 50% sobre o preço de capa. Duas semanas atrás conferi com um vendedor da Cultura os estoques de todas as lojas de São Paulo e só havia um livro Gente X Mato na loja do Shopping Villa Lobos e um livro Mulheres da Amazônia em Campinas.

Em função disto os livros Mulheres da Amazônia e Gente X Mato não estarão mais disponíveis nas livrarias. As vendas serão feitas por mim com despesas de remessa incluídas no preço de capa.

A partir de amanhã estarei no Paraty em Foco para uma palestra na sexta-feira sobre “Civilizacão e Mentira” com Cassiano Elek Machado e Juan Esteves como entrevistadores e no sábado farei uma “Oficina sobre Projetos Pessoais”.

Os interessados na compra dos livros poderão entrar em contato comigo em Paraty pelo telefone 11 99817006

E o saneamento básico?

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Rio Pinheiros. Na margem esquerda a Universidade São Paulo e a raia olímpica


Comida de mato

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Qualquer frente de trabalho na Amazônia, abertura de fazendas, construção de estradas ou a extração de madeira conta com a caça como parte do rancho dos trabalhadores. O patrão, seja ele governo ou não, sempre coloca o básico para a sobrevivência dentro do mato. A comida de peão do mato não tem mistura, eles se viram bem com pólvora, chumbo, espoleta e qualquer espingardinha molambenta.

O patrão manda o básico: farinha, sal, açucar e o feijão mais barato da praça. Raramente tem algum óleo de cozinha. Os alimentos são cozidos e uma vez ou outra para animar a peãozada o patrão compra uma manta de charque coberto de sêbo para durar mais.

O café da manhã de um acampamento de trabalhadores que construia a estrada Transpantaneira que ligava Campo Grande a Corumbá era arroz com jabá gordo e rançoso. Era isto para começar o dia ou nada. A noite comiam o que conseguissem matar durante o dia. Uma noite cozinharam pedaços de uma jibóia e comeram com farinha. Sempre, tudo é comido com muita farinha.

Fiquei com os “paurosistas” derrubando árvores de pau-rosa dentro do mato quatro dias comendo veado cozido na água com sal e farinha. A noite, de sobremesa, um caboclo me oferecia um pedaço de fumo de corda para “dar uma adoçada na boca”.

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Na expedição de contato com os Kranhacãrore estavamos no paraíso. Não faltava carne de caça. Todos os índios xinguanos contratatos da expedição tinham uma carabina calibre 22 e era preciso atirar algum bicho todos os dias para completar o rancho enviado pela FUNAI, que atendia os pedidos do Claudio Villas Boas para enviar munição mas mandava um feijão bichado e um arroz todo quebrado.

O clássico do nosso acampamento era um cozido com todas as carnes de caça, 80% carne de macaco. O cozinheiro Kaiapó Kanísio picava tudo e colocava para cozinhar com um pouco de óleo que era guardado e controlado pelo Claudio que alternava os dias de utilização para economizar. O cozido era servido com muito caldo e comido com farinha. Era muito bom, ninguém reclamava mas fazia falta uma laranja, um pedaço de pão.

O macaco a moda do xingu feito pelos índios é colocado direto no fogo, sobre uma trempe de ferro, com pêlo, vísceras, “tudo, do jeito que caiu da árvore”. O pêlo vai sendo sapecado e como o bicho não foi aberto vai cozinhando por dentro e a medida que a água vai secando vai pegando uma cor dourada. As vísceras ficam cozidas no ponto e tambem são comidas.

Na aldeia Apalaí que ficava no traçado da estrada Perímetral Norte no Amapá encontrei um jirau com diversas partes de macaco sendo moqueado. Quanto mais expostos ao calor e a fumaça mais pretos ficam. A carne fica macia e é muito saborosa. Comer macaco moqueado para os Apalai é um ritual de prazer. Sentam em volta do girau e comem mergulhando os pedaços dentro de um molho com diversos tipos de pimenta. O melhor de todos que eu já comi.

No Xingu as mulheres só podem comer carne de macaco durante a gravidez. O macaco para os índios é o bicho mais limpo do mato porque raramente desce no chão para se alimentar. Come as melhores frutas e tomam diversos tipos de mel de abelhas.

A paisagem e as trutas

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Patagônia Argentina, na região de Junin de Los Andes. Esta fotografia foi feita quando eu cruzava o rio Malleo  para tentar pegar uma truta com fly que subia na superfície na outra margem. A pesca com mosca, como se diz em português, é feita de dentro da água com “waders”, uma roupa impermeável que se veste até a altura do peito. Dentro da roupa tem um bolso onde eu colocava uma Leica M carregada com um TRI-X . Hoje, tenho andado com uma digital no bolso da camisa. É muito mais cômodo mas, no fundo, tenho medo de me encontrar com uma grande chapa e me sentir descoberto com estas camerazinhas, querer o mesmo tom, aveludado, que tenho nesta cópia aqui publicada  e não conseguir.

Contas checas em cores

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Depois que publiquei a foto de ontem no post “Contas checas” é que encontrei esta foto do Claudio Villas Boas pendurando colares em um varal de cipó para atração dos índios gigantes. “Estamos na fase do namoro, temos que conquista-los”, dizia Claudio.

Toda a cobertura para o jornal O Globo foi feita em preto e branco mas depois de garantir a foto do jornal fazia uma ou outra coisa em cor com uma Pentax .

Apesar do tempo, quase 40 anos depois, muitos deste cromos estão perfeitos mesmo não tendo tratamento de conservação adequado. Somente os últimos dez anos estão acondicionados em sala desumidificada.

Contas checas

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No dia do contato com os índios gigantes, os Kranhacãrore, dois jovens caçadores apareceram do outro lado do rio, na margem direita do rio Peixoto de Azevedo, onde havia um varal de presentes com alguns colares, dispostos a fazer contato com os brancos. Aguentaram firme no barranco a pressão das canoas que cruzavam o rio. Quando faltavam alguns metros para a canoa em que estavam Claudio e Orlando topar no barranco este índio da foto esticou o arco na cara do Claudio Villas Boas como se fosse flechá-lo. Esta foto eu não fiz. Fiquei paralisado, sem comando, como se estivesse assistindo a cena em câmera lenta. Felizmente ele afrouxou o arco e foi se afastando para dentro do mato. Claudio e Orlando foram entrando até se aproximarem para o “beliscão”na barriga de um deles, que nas contas de Claudio este gesto significava o fim da perseguição e também o fim de uma nação.

Bom, eu havia dito em um post destes sobre a expedição que nos varais de presente encontravamos contas no chão. Claudio achava que os Kranhacãrore não gostavam de colares com duas cores e pedia que fizesse apenas colares de uma só cor. Teimoso e inconformado com o gosto dos Kranhacãrore eu montava escondido um ou outro colar alternando duas contas vermelhas e duas amarelas.

Meses depois revendo todo o material do contato descobri no pescoço do índio mais baixo e de cabeça redonda o colar que eu havia montado. Era o mesmo índio atrevido e brincalhão que havia esticado o arco na cara do Claudio Villas Boas, e também o que tomou o beliscão na barriga.

Moda

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Fabiana Scaranzi e Cris Nicklas posando em Barbados no Caribe para um especial de noiva da revista Manequim comandado pela editora de moda Claudia Berkout. O cabelo das modelos foi feito por Ricardo Cassolari do L’ Autre Famme.