Arquivo / março, 2009

Estes anjos da guarda…

tucu

“Eu trabalhava na cozinha da obra lavando louça, limpando o chão, aguentando gracinhas de peão. Queria ganhar mais e aprender uma profissão. Hoje sou soldadora e ninguém mais me chama de pilôto de fogão”

Soldadora da obra de Tucuruí /Pará -  Foto do livro Mulheres da Amazônia

Um papa verde

 


papa

Fotógrafo de Veja ficava na redação o tempo suficiente para pegar uma lente ou deixar os filmes para revelar . “Lugar de fotógrafo é na rua” dizia nosso editor Sergio Sade. 

No meio de uma tarde meu bip tocou dentro de um cinema na Avenida Paulista. Liguei para a redação e a ordem partiu, “venha imediatamente que o papa morreu”. 

Quando entrei no taxi eu já  não me sentia mais em São Paulo. Fui direto da sessão da tarde para o Vaticano. 

Vinte e quatro horas depois eu estava enfiado no meio de mais de 300 fotógrafos do mundo todo disputando uma credencial para cobrir os funerais do papa Paulo VI. Fiquei até a eleição do papa João Paulo I e voltei. 

Um mes depois o correspondente da Veja na europa, Marco Antonio de Rezende, me acordou as oito horas da manhã em um hotel de Londres. “Pedrão, o papa morreu”. Começou outra correria. Sempre com o coração na boca, chegamos na Piazza San Pietro lotada e vimos o corpo do papa sendo carregado pela guarda suiça no meio da multidão, em direção a Basílica. Varamos aquela multidão  inteira em direção a porta. 

Quando faltava menos de meio metro para o corpo entrar na Basílica eu subi, não sei onde e nem como, com uma M3 que estava de férias comigo e disparei para fazer este cromo. O Marco Antonio me disse depois que ouvia gemidos abafados das freirinhas que estavam na primeira fila. 

Despachei o filme para São Paulo na mão de um passageiro e fiquei fazendo contas do tempo de vôo, do desembaraço da bagagem, do trânsito até o filme chegar no laboratório. Depois o tempo de revelacão, a secagem e o encartelamento, que era enfiar os cromos no plástico e a chegada na mesa do editor. 

No dia seguinte recebi um telex dizendo que a foto estava ótima mas não ia sair  ”porque o papa estava verde” e,  segundo o editor da matéria, “não existe morto verde. Vai impressionar o leitor”. Argumentei dizendo que o papa estava embalsamado e sugeri que se fizesse uma duplicata corrigindo a cor, mas não teve jeito. A foto não saiu.

Revista Fotoptica

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Por mais que eu tento me controlar  não consigo. Volta e meia eu me encontro sentado com uma caixa no colo cheia de recortes de revistas e jornais, comparando a vida pregressa com a atual. Ainda não quero fazer comparações sobre a qualidade da produção da época com a de hoje, mas uma horas destas vou  mostrar algumas reproduções como a do Jornal da Tarde que trouxe um ensaio do fotógrafo Armando Barreto sobre a captura de cães com a “carrocinha” da Prefeitura.

Agora, sem dúvida o  espaço que a fotografia ocupou já foi bem maior. Onde estão as chamadas “páginas gráficas” que contavam histórias só com fotos? Nunca mais vi uma primeira página com o logo do jornal e uma foto de página inteira, sem título. Os ensaios de quatro páginas da Veja, os cadernos de esporte com fotos enormes. As revistas Manchete, Cruzeiro e Realidade. Tinhamos revistas de fotografia, como a Fotoptica que fazia por por conta própria uma ótima curadoria sobre os melhores trabalhos e publicava ensaios belissímos. Eu tive o privilégio de ser chamado pela diretora de arte Micheline Lagnado para publicar um ensaio preto e branco sobre os boias-fria, um dos meus primeiros trabalhos pessoais. Foi uma bela injeção de ânimo. Obrigado Fotoptica.

“Virgem Maria, acode nóis”

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“Quem tem que prestar atenção neste bichão somos nós. Lá de cima ele não vê a gente, passa por cima e nem sente nada” .

Depois dos piratas que atacam as embarcações na região da Ilha do Marajó para roubar grude, a bexiga nadatória da gurijuba e da pescada amarela, o maior medo dos pescadores é dos navios que cruzam aqueles mares, principalmente quando a rede esta sendo retirada. Com parte da rede dentro da água a pequena embarcação a vela fica atada a outra parte que esta dentro do barco, sem nenhuma chance de sair do rumo do navio rapidamente. A apreensão é grande porque a vista não larga mais aquele monstro, desde quando era apenas um ponto preto em cima da linha que dividi o céu do mar.

Com a proa do navio sempre apontada na direção do  pequeno “casquinho” o navio se aproxima rapidamente e a largura de seu casco vai virando  uma parede preta, um imenso fundo infinito que vai ocupando o espaço do céu.

Um deles tirou o chápeu , levou até o peito e disse, “Virgem Maria, acode nóis” e foi para o leme tentar aprumar  a proa para receber o banzeiro que rolava na nossa direção. Topamos com aquela onda imensa e a calmaria voltou.

Um vento de popa colocou o barco rapidamente na costa, abrigado dentro de um igapó para merendar um avuado de sororoca. “Ela sempre acudiu nóis, disse o pescador mais velho, com o chápeu no peito e olhar para o céu.

Gil - Iso 6400

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Gilberto Gil colocou uma condição para falar com exclusividade para a revista Nova. A entrevista seria no hotel onde estava hospedado e as fotos deveriam ser feitas durante a conversa com o repórter, sem flash. Minha missão era sentar na frente dele e fazer uma foto para a abertura da matéria com qualquer condição de luz.  A conversa foi em uma sala de convenções no sub-solo do hotel iluminada com luz florescente fraca e piscante. Um breu. Fui com uma 135mm 1.1:2 e bem calçado num TMAX 3200, puxado um ponto. O enquadramento foi o mesmo nos dois filmes que fiz e esta foi a foto que abriu a matéria. O TMAX  desapareceu do mapa, pelo menos aqui no Brasil. E o grão? Ouvi dizer que o fotoshop faz igual. Sera?

Amazônia monocromática

vermelho

verde

amarelo

Foram mais de dez anos pesquisando, sonhando e fazendo listas intermináveis de compras para passar até dois meses fora de Manaus, no barco Taba, que comprei para fazer o livro Amazônia o Povo das Águas.

Juntamente com o comandante Almir naveguei seis anos, entrando em lagos, igarapés e igapós.

Nas primeiras viagens filme cor não pisava no meu barco. Só o velho, bom e conhecidissímo TRI-X. Com uma LeicaM, discreta e elegante,  formava uma dupla imbatível. Aliás ela, a câmera, se recusava a receber outro filme, cor então, nem pensar.

Navegar nos grandes rios é uma mesmisse sem fim. Céu cinza, uma faixa verde e água, se for barrenta pior ainda.

A amazônia é monocromática. A cor entra forte, explícita, quando se chega nas comunidades, incomodando os olhos acostumados com os tons de cinza dos dias intermináveis de navegação.

Não tem jeito. Cor é informação. Me fiz de bobo um domingo numa comunidade no alto de uma barranca no rio Solimões. Vi, mas fiz de conta que não vi, os vestidos coloridos pespontados a mão das mulheres sentadas num banco de uma pequena igreja. Deixei de fazer um par de belas fotos. Uma pontada no peito.

Como foto não feita é sempre melhor que foto feita, além de ficar remoendo a vida toda, faz a rota ser corrigida imediatamente. O livro passou a ter, a partir daquele momento, tambem fotos coloridas.

Netão

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Nosso querido Luis Roberto, o Netão, que nos deixou ainda moço, era um grande e querido fotógrafo do Estúdio Abril. Quando lá cheguei em 1984 o Estúdio tinha apenas dois fotógrafos, ele e o mestre Jorge Butsuen. Um ano depois eramos mais de dez fotógrafos que formaram uma boa parte dos assistentes do Estúdio em fotógrafos que hoje estão no mercado editorial e publicitário.

Este belo retrato do Netão foi feito pelo fotógrafo Pedro Rubens - prubens@uol.com.br - copiado a partir do negativo de um Polaroid 4X5.

Niède Guidon

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Niède é arqueóloga e responsável pela criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. A foto foi feita na entrada de sua casa.

Algumas constatações

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Para quem aprendeu o oficío dentro de um laboratório fotográfico carregando sacos de hipossulfito de sódio para diluir  e sentir no tato o lado emulsionado de um filme, a fotografia digital é uma mudança e tanto.

Ficar fazendo comparações sobre a vida pregressa é muito chato e não leva a nada. Tem que dançar conforme a música. Agora, as constatações do dia-a-dia são inevitáveis e ainda esta cedo para esquece-las.

Por exemplo, viajar agora é muito diferente. A quantidade de tralhas é muito maior.Tudo depende de energia elétrica, computador, extensões, baterias e caixas estanques porque em nada pode cair um pingo de água, novesfora o tamanho absurdo das cameras atuais quando comparadas com as Leicas M.

Levei anos para me entralhar com o mínimo possível. Hoje, quando toco meus projetos pessoais uso a camuflagem do cidadão comum e não mais o uniforme de fotógrafo com bolsa, colete e outros adereços.

No final de uma viagem ter 30 rolos expostos para quem trabalha na mão, sem motor, por conta própria e sem a pressão de uma encomenda é uma boa quantidade de filmes.

Filme exposto não é mais filme, é ouro.

Com filmes preto e branco é feito o contato que é um bom medidor das camisas suadas ao longo do trabalho.

Enquanto o filme não é revelado é uma angústia. Depois, sobre a mesa de luz

uma filada nas pontas para ver se tudo esta exposto, e a lupa começa a correr sobre os fotogramas alternando euforia e depressão em frações de segundo. É só calafrio.

O contato é o eletrocardiograma do fotógrafo. Um bom editor sabe, pelo contato, como foi o dia do fotógrafo. Aponta no fotograma quantas fotos boas foram atropeladas, não vistas ou feitas com a lente errada. Vai buscar dentro de uma fotograma feito com uma 28mm uma foto que deveria ter sido vista com uma 180mm.

Mais calafrio. O calafrio é ótimo porque aterriza o cidadão. Corta as asas.

A fotografia digital acabou com a angústia, com o contato, com a mesa de luz,  com a lupa ansiosa que vai atrás da foto que a memória não esqueceu.

Fotografar agora ficou mais leve, mais divertido. Não dá insonia.

Outro dia fui comer no Mocotó com meu amigo Dória e, como se estivessemos beliscando um antipasto fotografamos sentado,  ele com o celular e eu com uma câmerinha digital. O Dória seguia a mão do Sr. José Oliveira, pai do chefe Rodrigo, para fazer um detalhe do anel que ele usava e eu me ocupava com o still de dois torresmos e um copo de cachaça. As câmeras longe da cara flutuavam sobre a mesa.

Ao nosso lado duas mesas lotadas não deram a mínima bola para nós. Sem a fantasia de fotógrafo ninguém mais pergunta “em que canal vai passar moço?”.

Isto é o melhor da digital.

 

Arco Íris

arco1Fui para Monte Verde, em  Minas,  e dei de cara com este arco íris na estrada. Ai, começou um velho e conhecido diálogo comigo mesmo.

Paro e faço a foto ou não. Acho que não, é um cartão postal muito batido.Vira, sobe e desce e ele esta na minha frente, mas o primeiro plano não é legal e a estrada não tem acostamento. Chove, pára, chuvisca e o arco íris comparece a direita, maior ainda, mais colorido e provocante. Instintivamente vou levando a mão direita na mochila  tateando para encontrar o saquinho de couro com a câmera. Que aflição, mão esquerda no volante e mão direita na mochila revirando tudo e o arco íris querendo ir embora.O subconsciente já decidiu, “pare o carro e faça a foto”. Não, isto é foto de banco de imagens e eles já devem estar cheios de arco íris. E o que eu vou fazer com isto?

Sem perceber meu carro já estava parado, eu com a cámera na mão e o tempo justo para fazer este enquadramento, uma chapa  e ele se apagou. Que alívio. Não adianta, por do sol e arco íris são irresistíveis.