Arquivo / 'Memória'

Abóbora da roça Panara

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Um belo dia os Panara colocaram fogo na maloca grande da aldeia principal e desapareceram. Claudio sobrevoou a aldeia para jogar presentes e avistou no centro da aldeia um enorme varal com muitos instrumentos de trabalho, arcos e flechas, machados de pedras e bordunas enormes. Claudio interpretou que eram presentes e nós tinhamos que ir busca-los. Caminhamos tres dias até encontrar a picada principal que nos levaria a aldeia grande. Antes passamos por muitas aldeias menores, todas dentro do mato, cruzamos roças fartas. Se não fosse as abóboras, amendois e bananas das roças Panara teriamos passado fome porque a orientação do Claudio era para que não se disparasse nenhuma arma, mesmo que fossemos atacados a orientação era disparar para cima.

A comida da expedição nestes tres dias foi abóbora cozida, farinha, banana e um bom punhado de amendoim encontrado dentro de um aturá que estava amarrado no pé de uma árvore. Provavelmente servindo como seva para algum bicho que seria caçado de espera pelos índios.

Na foto acima os caldeirões com abóboras sendo cozidas para o almoço na beira de um igarapé nas proximidade da aldeia Panara.

Irving Penn, a obra é emocionante

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Será que os revisteiros de hoje viram isto?

Capa da revista Bondinho, do supermercado Pão de Açucar, fotografada por George Love em 1971 e uma abertura de matéria feita por Luigi Mamprim tambem sobre os bailes da cidade publicada na revista Realidade.

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Até hoje, anos luz de distância da internet, da mediocridade

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Maria-vai-com-as-outras

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O post que eu escrevi na quinta-feira, “Fotografia pra que?”não foi um faninquito qualquer, é o acúmulo de mesmice e porcaria que o olho recebe todo dia e, tudo isto fica mais claro ainda quando visito meu arquivo de revistas antigas. O meu fio da meada esta lá. Tenho referências de matérias que me servem até hoje.

Os editores de fotografia sumiram do mapa. Não sei mais como é a conversa dentro de uma redação mas a maioria dos editores não sabe o que é foto no eixo e grande angular. Nunca saiu tanta foto de gente deformada pelas grande angulares como agora. Os fazedores de revista montam texto e compram fotos no computador. A revista é um produto do computador, por isso ela esta cada vez mais com cara de um WWW qualquer, com aquela cara de catálago de loja de departamento da internet. A dor é esta. É ter que engolir todo dia lixo da pior qualidade e, ouvir um ou outro discurso de gente que já foi boa de serviço, elegante e de bom gôsto, de uma hora para outra virar uns Maria-vai-com-as-outras, assim, em nome desta ola que parece não ter fim. Uma pena, foram entregando os pontos, perdendo os bons modos, os tons pasteis e embicando para as cores básicas saturadas, entrando no mundo fácil do “voce não acha que ficou bem legalzinho, assim?”.

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Fotografia pra que?

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Tem muita gente que esta com os cabelos em pé. Muitos fotógrafos ainda estão deslumbrados com o mundo digital e o foco cortante que se apresenta. A maioria não tem prestado atenção que o que interessa mesmo é papel, revistas, jornais e livros que estão acabando rapidamente. As revistas estão cada vez mais com cara de computador e as tiragens pelo que ouço só diminuem. Cada vez mais se fala em ler jornais pela internet, eliminar o papel. Belo ânimo para os jovens fotojornalistas. Outro dia uma amiga me disse que as vendas dos bancos de imagem despencaram. Eu acredito, toda vez que querem comprar uma foto minha e eu digo para ligar para o banco onde tenho minhas fotos o sujeito fica mudo alguns segundos, de medo do custo, eu acho. Eles sempre ligam direto para o fotógrafo achando que a foto vai sair mais em conta. Até os projetos pessoais, os livros estão embicando para o mundo das facilidades. Agora só se fala em impressão sob demanda, nos custos, nas facilidades de comercialização mas, nunca na qualidade da impressão, no acabamento. O que interessa se o livro é costurado manualmente? É só mandar o PDF para a gráfica via e-mail e esperar o correio entregar em casa.

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Cada vez que eu dou uma passada nas minhas dezenas de caixas com negativos e cromos eu descubro histórias que não teriam fotos se a minha profissão não fosse a de batedor de perna profissional. Eu andava com um bolo de quatro dedos de altura de passagens aéreas na minha bolsa e não voltava para casa nunca, eu virava mundo sem parar, fotografando, contando histórias e quando voltava tinha o principal da vida, o veículo, o jornal, a revista para publicar as matérias. E isto é o que esta acabando. Não tendo mais revistas e jornais para que serviria a fotografia? Valeria a pena fotografar para publicar fotos na internet, como eu tenho feito neste blog, sera?

Jânio Quadros

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O jornalista Augusto Nunes esta contando no blog da Veja - http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/- a história da entrevista que fez com Jânio Quadros logo depois que o ex-presidente desembarcou de um navio cargueiro com dona Eloá de uma viagem de dois meses a europa. Eu acompanhava o Augusto para fotografar para a matéria de capa da revista Veja. Precisava de uma foto do presidente com a famosa cadela quinta-feira e, claro, ele com o copo de wisque na mão. Não teve jeito. O homem era um malabarista. O copo sempre chegava na mesa cheio, vindo da cozinha, abastecido por dona Eloá ou pelo empregado da casa e, pior, antes do gole ele dava uma pausa me olhava e pedia: “Sr. fotógrafo, não me fotografe com o copo na mão por favor”. Além disso ele sempre colocava o copo dele ao lado de uma lata de Coca-cola. “Os jornalistas beberam, eu não”.

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Jorge Butsuen e Pedro Rubens, fotógrafos. E o primeiro computador do Estúdio Abril

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Estúdio Abril

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A história da onça do Claudio

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A rotina do acampamento da expedição de contato dos índios Panara comandada por Claudio e Orlando Villas Boas era sempre a mesma. Como as casas eram dentro do mato o limite para tomar banho com luz do dia era quatro horas da tarde e o jantar servido as cinco. Todo mundo comia de frente para o rio em silêncio, assistindo o último clarão do céu morrer no espelho d’água do rio Peixoto de Azevedo. As seis todos já estavam em suas redes e o falatório na diversas línguas ia até as sete. Na casa do Claudio uma lamparina à querosene ficava acesa até altas horas. Era para lá que eu ia todas as noites depois do jantar. Claudio gostava de relembrar os restaurantes que costumava frequentar. Quase sempre faziamos uma viagem imaginária, a pé, que começava nos altos da Avenida Paulista e terminava na frente de uma prato de capeletti a romanesca no Gigetto, o restaurante preferido do Claudio.

Luigi Mamprim era o fotógrafo da revista Realidade, dormiamos na mesma casinha mas ele dormia cedo. Eu ficava sentado em um banquinho na frente da rede do Claudio ouvindo tudo, sermão contra os militares, estratégias do contato e histórias de mato, do desbravamento do Brasil Central de cair o queixo. Eu adorava ouvir o Claudio.

Onça é um bicho que não sai da cabeça de quem anda no mato um segundo e alimenta o imaginário de gente que não sabe que, o que mata no mato é o medo. Caboclo do mato só pensa nisso e lenda é o que não falta. Nós, lá no Peixoto tinhamos visto muitos rastos nos barreiros e eu mesmo quando voltei para o acampamento depois de uma tarde de chuva encontrei umas pisadas do tamanho da minha mão aberta ao lado da minha rede. Foi um baque. Na noite anterior eu e o Claudio tinhamos visto a silhueta maravilhosa, contra a luz de uma lua cheia, de uma onça enorme atravessando a pauleira da derrubada do campo de pouso. Resolvi mudar minha rede para perto do trempi da cozinha que ficava com fogo a noite toda. Naquela noite a conversa foi sobre onças e Claudio me contou esta história sobre uma onça que andou ao lado dele o dia todo.

Claudio e os irmãos estavam fazendo a picada do Brasil Central e os trabalhadores que Claudio chefiava resolveram fazer um levante e não seguir mais viagem com ele. Claudio deixou os trabalhadores e voltou a pé para montar uma nova expedição. No segundo dia de caminhada, logo pela manhã, uma onça pintada começou acompanhar os passos do Claudio a 15 metros dele, paralela a picada. Claudio tinha na cinta um Schimth Weston calibre 38, cromado, cabo de madre pérola, uma jóia. Logo que ela apareceu, ele chegou a levar a mão na coronha. Andou um bom pedaço com o antebraço apoiado na cartucheira, foi afrouxando e cada vez mais prestava a atencão na beleza do bicho. Ele me descreveu a luz que entrava pelas frestas da capoeira e faziam o pêlo da onça pintada brilhar. Claudio descrevia o passo cadenciado, a beleza das mãos e me disse que os olhos dela faiscavam quando os olhos deles se cruzavam. A região era plana, uma mata de transição, um cerradão meio limpo por baixo onde ele podia ter um bom controle do bicho. Uma bela hora resolveu dar uma parada para acender um cigarro. A onça parou e sentou. Trocaram mais olhares e a onça lambia os bigodes com uma língua enorme, tranquila. Claudio resolveu brincar, deus mais uns dez passos e parou de novo. Ela levantou com muita calma andou mais um pouco e sentou novamente, continuou olhando para o Claudio, lambendo os bigodes. Claudio achou divertido a brincadeira com o bicho e retomaram a caminhada, ela sempre ao lado dele. “De vez em quando ela sumia e eu ficava preocupado, encostava em uma árvore grande e esperava um pouco, voltava a caminhar e logo ela aparecia sempre paralela a picada, pertinho de mim”.

Um pouco antes de escurecer Claudio montou um girau e armou sua rede em dois paus finos a dois metros do chão. Não sentiu medo. Adormeceu e sonhou com a beleza dos movimentos da pele brilhante da onça pintada, sua companheira de caminhada.